01/03/2026
Eu sou Punch. 🐒
Tinha horas. Depois um mês. E fui afastada da minha mãe. Não foi abandono, nem rejeição. Foram cirurgias ortopédicas, regras hospitalares…
Os meus pais contam aquela que foi a pior viagem da vida deles: Ponta Delgada–Lisboa. A bebé foi transportada pelo médico para o Hospital Dona Estefânia e eles sem autorização de acompanhar. Em 1988, não havia telemóveis, nem informação em tempo real. Chegaram a um hospital gigante sem saber onde eu estava internada. Andaram pelos corredores numa mistura de desespero e impotência até que, depois de uma eternidade, alguém disse onde estava a “bebé açoriana”.
Era tudo necessário. Mas uma bebé não entende o conceito de “procedimentos necessários”. Sente ausência. E o corpo regista.
Só muitos anos depois, já adulta e em terapia, comecei a juntar peças que sempre estiveram espalhadas pela minha história. O medo de rejeição e abandono que eu achava exagero meu. A sensibilidade a qualquer afastamento. A dificuldade em dormir profundamente, como se alguma coisa pudesse acontecer enquanto descanso. As enfermarias com crianças a chorar, o movimento constante, o corpo pequeno a tentar adaptar-se a um novo mundo.
Não é uma narrativa de vitimização mas sim de compreensão. Quando percebemos de onde vem uma reação, ela passa a ser coerência na nossa história. Tudo tem a sua razão de ser. Como explica Gabor Maté ao falar de trauma, e John Bowlby na teoria da vinculação, o que vivemos cedo organiza a forma como depois sentimos o mundo.
Há experiências que não escolhemos, mas que nos moldam na mesma. E talvez a verdadeira coragem não esteja em dizer “isso já passou”, mas em reconhecer que o corpo recorda, e que hoje podemos cuidar daquilo que um dia não teve escolha. Terapizar com IFS com o meu psicólogo ajuda-me a trazer curiosidade, clareza e compaixão a esta fase.
E dizer àquela bebé:
Eu vejo-te. 🌸🩷💫🦄