01/01/2026
O início de um novo ano convoca, frequentemente, a ideia de mudança. Contudo, nem toda a mudança corresponde a um processo verdadeiramente transformador.
Na clínica, mudar não significa uma adaptação rápida, nem a substituição de sintomas por formas de estar socialmente mais aceitáveis. Mudar é um processo relacional, lento, vivo e profundamente humano. A mudança só se torna possível quando o sujeito se sente emocionalmente reconhecido e suficientemente seguro para ensaiar novas formas de existência.
Ao longo da minha formação e do meu percurso clínico, encontrei em António Coimbra de Matos um Professor, um Psicanalista e um Mestre, que marcou de forma decisiva a minha forma de estar na vida e na clínica. Com ele aprendi que a relação é terapêutica — não como metáfora, mas como fundamento clínico essencial. De tal forma que, sem a relação, restaria o nada.
A relação terapêutica aproxima-se, nesse sentido, da relação primária entre mãe e bebé: um vínculo vivo, atento e afetivo, onde a presença segura regula e contém, tornando possíveis o desenvolvimento e a organização interna. É neste tipo de relação — suficientemente segura, empática e contínua — que o sujeito começa a reorganizar-se e a transformar-se. O terapeuta, enquanto "mãe suficientemente boa" (de Winnicott), permite ao paciente retomar processos de amadurecimento que foram interrompidos ou distorcidos.
Na psicoterapia, é a relação que cria o campo onde o sofrimento pode ser acolhido e transformado. Uma relação "sanguínea", no sentido mais saudável do termo: vital, implicada e reparadora, capaz de reconstruir o que foi experienciado em falha ou rutura.
Daniel Stern demonstrou que a mudança ocorre no campo intersubjetivo: nos pequenos momentos partilhados, nos microajustes afetivos e na experiência repetida de uma relação de segurança. Na mesma linha, Karlen Lyons-Ruth sublinha que o que transforma não é apenas o insight, mas a experiência relacional que reorganiza implicitamente o self.
Acredito numa clínica de proximidade e de afetos. Numa relação empática e implicada, onde existe um verdadeiro investimento no outro — porque só podemos ajudar quando estamos, de facto, disponíveis para o outro.
Que este novo ano de 2026 possa abrir espaço a mudanças habitáveis: não impostas, nem violentas, mas construídas no encontro e na continuidade de uma relação que sustém.
Estes são os meus votos para todos
Clara Cymbron
Notas clínicas: texto ancorado na clínica relacional e psicanalítica (A. Coimbra de Matos; D. Stern; K. Lyons-Ruth; D. W. Winnicott).