11/01/2026
A nossa tendência para projectar sobre os adolescentes muito das nossas desarrumações acontece desde sempre. Ou é porque são pouco focados. Ou porque são os campeões das respostas tortas. Ou porque não dão valor a nada. Ou porque procrastinam exageradamente. Ou porque têm doses para além do razoável de mau feitio. E não é que eles não sejam um bocadinho assim. Mas os adolescentes parecem servir um bocadinho como o papel absorvente em relação à gordura: é mais fácil vermos neles coisas fora do sítio do que nos perguntarmos até que ponto isso tem alguma coisa a ver com o que se passa connosco,
Vem isto a propósito da vontade que, hoje, eu tenho de vos falar da relação dos pais dos adolescentes com os telemóveis. Porque, muitas vezes mais do que os próprios filhos, os pais vivem dependentes deles. Ou porque estão sempre ao telefone. Ou porque percorrem dois quilômetros por dia a fazer scroll nas redes sociais. Ou porque, também para os pais, o telemóvel parece fazer parte do seu corpo, a ponto deles ficarem atordoados sempre que passam sem ele. Sem a particularidade de terem quem os castigue, de vez em quando, privando-os de telemóvel, como os pais fazem com os filhos.
Ora, a mim inquieta-me que se amamente a olhar para o telemóvel. E que, quando não fazem de helicópteros bondosos em redor dos filhos, os pais nunca se desliguem do telefone. E que o usem para adormecer e acordem agarrados a ele. E para irem à casa de banho. Ou, mesmo quando andam pela rua. Ao pequeno almoço e às refeições. E incomoda-me porque, da mesma forma que acontece com os adolescentes, os pais se distraem demais. E pessoas muito distraídas são menos empáticas, menos cuidadosas, mais silenciosas, mais cansadas e, até, mais impulsivas. Daí que, como resolução de ano novo, não me parecia mal que os pais passassem a usar o telemóvel com moderação. Para que, até com base nas suas próprias dificuldades, reunissem os créditos indispensáveis para exigir aos filhos que o façam também. A bem da saude mental de toda a família. E fazendo com que aquilo que serve para comunicar não nos vá dando empurrões para vivermos mais conformados nos nossos desamparo e mais distantes uns dos outros.