15/03/2026
Estamos nos últimos momentos do inverno, mesmo antes da chegada da primavera.
Sinto que, de certa forma, também estou a atravessar esse mesmo ciclo dentro de mim.
Desde que regressei do México, em novembro, tenho caminhado por um inverno interior. Um tempo mais silencioso, de reflexão e por vezes de alguma dureza. Em Portugal o inverno foi rigoroso, e cá dentro também senti esse frio que nos convida a recolher, a escutar mais fundo e a cuidar do nosso próprio fogo.
Na visão mais xamânica da vida, o inverno não é um erro do caminho. É um tempo sagrado de pausa. Um tempo em que a Terra descansa, as sementes permanecem no escuro e o espírito tem espaço para falar mais baixo… mas mais verdadeiro.
Aqui no Japão a viagem tem sido surpreendente e muito rica em momentos de contemplação e autocuidado.
Em Takayama encontrei um ritmo diferente. Um lugar onde pude descansar das grandes cidades e das visitas constantes, e simplesmente estar. Meditar. Caminhar devagar. Escutar o silêncio das montanhas. E entregar o corpo aos onsen, esses banhos termais que parecem verdadeiros úteros de água quente onde o corpo relaxa e a alma também.
Foram momentos de purificação, de pausa e de reconexão.
A cultura aqui é muito marcada por regras e por uma certa rigidez. Em alguns momentos senti isso de forma intensa, quase como a própria rigidez do inverno. E isso também me trouxe reflexões profundas sobre estrutura, disciplina e liberdade interior.
Às vezes o espírito também nos leva a lugares que espelham aquilo que estamos a atravessar.
Agora preparo-me para regressar a Portugal… e curiosamente chego exatamente no dia em que a primavera começa.
Sinto que não é apenas uma coincidência.
Depois do inverno, depois do silêncio, depois do mergulho interior… chega sempre o tempo de florescer.
Que a primavera nos encontre com o coração mais verdadeiro, mais escutado e mais vivo. 🌸