26/01/2026
Nem todo trauma se apresenta como lembrança.
Alguns se escondem no modo como você ama, no jeito como se cala, na facilidade com que se anula para não perder ninguém.
O trauma não curado aprende a viver disfarçado. Ele vira medo constante de abandono, necessidade excessiva de validação, dificuldade em dizer não, tolerância ao que machuca. Vira uma vigilância silenciosa, um estado interno de alerta que nunca desliga completamente.
Muitas vezes, a pessoa nem sabe que está ferida. Ela só sente que precisa agradar para ser aceita. Que precisa controlar para não sofrer. Que precisa se adaptar o tempo todo para não ser deixada. Por dentro, uma vergonha difusa. Uma sensação de inadequação que não tem nome, mas pesa.
O corpo também participa dessa história. Emoções que transbordam sem aviso ou se congelam por completo. Momentos de desconexão, como se a alma precisasse sair do corpo para suportar. Dificuldade em sentir prazer, alegria ou segurança, mesmo quando tudo parece bem por fora.
Isso não é defeito de caráter.
É memória emocional.
São respostas aprendidas em um tempo em que não havia proteção suficiente, acolhimento ou espaço para sentir. Estratégias que um dia salvaram, mas que hoje aprisionam. O trauma não quer destruir, ele quer evitar que a dor se repita.
Curar não é apagar o que aconteceu.
É ensinar ao sistema emocional que o perigo já passou.
É permitir que o corpo relaxe, que a mente desarme, que o coração volte a confiar no presente.
A cura acontece devagar, em camadas. Ela nasce quando você para de se violentar tentando ser forte o tempo todo e começa a se tratar com a delicadeza que faltou lá atrás.
Se algo em você ainda vive em alerta, não é fraqueza.
É uma parte sua que ainda está esperando segurança.
E oferecer isso a si mesma é um dos atos mais profundos de amor e liberdade interior que existem.