02/05/2026
“Sabe, doutora,” começou L., a voz embargada, “a minha filha… ela é tudo para mim. Mas há um vazio. Parece que, não importa o quanto eu me esforce, não consigo… sentir-me reconhecida como mãe dela.”
F**a em silêncio depois disso, como se a frase tivesse aberto mais do que queria.
Veio à consulta por causa da filha, mas o que traz não começa aí - (re)começa muito antes.
A L. chamava a ama de mãe, sem a mãe poder saber.
Era um acordo silencioso, feito de olhares e de coisas que não se diziam. Um pedido implícito que organizava o lugar de cada uma: “Chama-me mãe… mas não contes a ninguém.”
E L. fazia-o.
Porque as crianças fazem. Adaptam-se ao sistema em que crescem e aprendem cedo a regular o que mantém tudo em equilíbrio, mesmo quando isso implica não nomear o que sentem.
Cresceu entre dois eixos: a mãe, presente por trabalho mas emocionalmente signif**ativa, e a ama, presente no cuidado diário.
E entre as duas, L.
Sem escolha consciente, ficou num lugar intermédio, a sustentar ligação. Ajustava, lia o que não era dito, evitava conflito.
Aprendeu que pertença depende de adaptação, que estabilidade depende de silêncio, que vínculo se sustenta no não dito.
Esse padrão não ficou no passado. Reaparece agora na relação com a filha, na dificuldade em sentir-se inteiramente mãe e na necessidade de reconhecimento para sentir esse lugar como seguro.
Fico a escutá-la. Não vejo uma falha individual, mas uma organização relacional antiga que se repete: uma criança colocada no meio de dois lugares que não se encontravam directamente e que cresceu a evitar a ruptura entre eles.
Na verdade, tudo se concentra num ponto: o lugar onde hoje tenta ser mãe é o mesmo onde aprendeu, em silêncio, a não o ser inteira.
Lá está, o que acontece na infância não f**a lá - não precisa de ser apagado para deixar de mandar. Basta que possa ser visto sem segredo.
Para a L., que veio por causa da filha e tem corajosamente encontrado o seu lugar, para poder ser filha da mãe.
Com amor,
Francisca