20/03/2026
Não digas mal do pai, por favor.
Eu sei que há mágoas que custam a calar.
Sei que, às vezes, dizer em voz alta aquilo que nos feriu parece aliviar, como se, ao nomear a dor, ela f**asse mais pequena.
Mas quando me falas assim, essa dor não f**a só tua… passa também a ser minha.
Não digas mal do pai, por favor.
Eu não sou o lugar onde as feridas dos adultos se resolvem.
Não sou juiz, nem mediador, nem preciso de saber quem falhou.
Preciso, isso sim, de espaço para construir as minhas próprias ideias, ao meu tempo, com as minhas experiências.
Não digas mal do pai, por favor.
As crianças não precisam de conhecer as cicatrizes dos adultos para crescerem bem.
Precisam de segurança, de coerência e de liberdade para amar sem conflito interno.
O tempo, a relação e a vivência encarregam-se de mostrar o que cada um é.
Não digas mal do pai, por favor.
Quando me pedes, mesmo sem palavras, que tome partido, crias em mim um peso que não sei carregar.
Porque amar um não pode signif**ar trair o outro.
Não digas mal do pai, por favor.
Há tantas crianças a ouvir, em silêncio, histórias que não são suas… a tentar organizar emoções que ainda não conseguem compreender… a guardar dentro de si mágoas que não lhes pertencem.
Eu só precisava de poder ser criança.
De amar os dois sem culpa.
De crescer sem ter de escolher lados numa história que não escrevi.
Não digas mal do pai, por favor.
Porque aquilo que dizes sobre ele…
acaba sempre por ecoar dentro de mim.
[Depois do Dia do Pai, continuo a escolher isto:
ser advogada de uma infância sem conflitos de lealdade.
Pelas vozes de todas as crianças
que o sentem, mas ainda não sabem dizer].
Francisca Silva Ferreira