25/01/2026
Naquela manhã recebi a Marta.
Veio à consulta como mãe.
Exausta, magoada, confusa.
Tinha uma filha de 13 anos que descrevia como ingrata.
Dizia que a filha não valorizava nada, que revirava os olhos, respondia mal depois de “tudo o que faço por ela” e parecia impossível de agradar.
Enquanto falava, o seu corpo dizia-me que passou a vida inteira a pedir desculpa por existir.
Sem perceber, era o espelho de (quase) todos os “ingratos”.
Pergunto-lhe pela infância.
A Marta cresceu como a maioria: uma criança “normal”, que brincava, sorria e se magoava. Mas ouviu cedo que devia ser grata. Sempre. Mesmo quando estava triste, sozinha ou precisava de dizer: “isto dói”.
Sempre que expressava frustração, alguém lhe lembrava os sacrifícios feitos por ela.
E aprendeu que receber amor signif**ava não dar trabalho emocional.
Esta aprendizagem não desaparece. Transmite-se.
Hoje, quando a filha chega irritada, a Marta não vê uma adolescente em conflito.
Vê ingratidão.
Porque dentro dela, emoções difíceis e gratidão nunca coexistiram.
Quando a filha diz “não me ouviste”, ela ouve: “não reconheces tudo o que faço”.
Quando a filha se fecha no quarto, sente: “não sou suficiente”.
E, quase sem dar por isso, responde como lhe responderam a vida inteira: lembra tudo o que dá, tudo o que abdica, tudo o que faz.Malditos ecos.
Nesse momento, a relação deixa de ser encontro.
Passa a ser contabilidade emocional.
Em sessão, conseguimos nomear isto:
a dívida cria hierarquia.
Quem dá f**a por cima.
Quem recebe aprende a encolher-se.
A Marta percebeu que a gratidão que exigia da filha era a mesma que lhe foi imposta.
Uma gratidão que não escuta, não pergunta, não tolera frustração.
Mas os adolescentes não se encolhem - resistem.
O que numa criança é silêncio, num adolescente pode ser confronto.
E muitas vezes chamamos ingratidão ao que é apenas uma tentativa de existir.
Talvez muitos dos “ingratos” sejam pessoas cansadas
de pagar com o próprio silêncio aquilo que chamaram de amor.
E se a Marta me ler, talvez não se sinta grata.
Talvez se sinta apenas… vista.
E, às vezes, isso é tudo o que o amor precisa.
Com amor, para todas as Martas que (pensam e sentem) a vida comigo.
Francisca