03/09/2025
O Silêncio de Pedra (Couraça Oral)
Capítulo II da história de Iris
Depois de aprender a ver através dos véus, Íris resolveu sair e ver o mundo e chegou a um vale onde reinava o Silêncio de Pedra.
As pessoas ali falavam pouco, e quando falavam, suas vozes soavam fracas ou ásperas, como se cada palavra fosse arranhada por dentro. Muitos tinham os lábios contraídos, outros mordiam a própria língua em segredo.
Nesse lugar, o riso era raro e o choro, proibido.
Havia guardiões que vigiavam os sons, prontos para punir qualquer um que ousasse cantar ou gritar. Assim, as bocas se endureciam, as gargantas se fechavam, e a vida se engasgava.
Íris encontrou uma fonte. Seus lábios, porém, não se moviam para beber. Íris lembrou que desde pequena, aprendera a não pedir, a calar sua fome e sua sede.
Uma criança se aproximou e lhe ofereceu água em uma cuia de barro. Íris a recebeu e sentiu o líquido escorrer não apenas em sua garganta, mas em sua alma.
Ali, compreendeu que pedir e receber não era fraqueza, mas comunhão. Sua boca, antes selada, agora podia expressar gratidão e lembrou se do segredo que aprendera com os olhos: libertar é permitir.
Deixou que o choro subisse, que os soluços quebrassem o silêncio. Aos poucos, sua voz foi surgindo, trêmula, mas viva.
Cada som arrancava uma lasca da rocha que cobria o vale.
Quando finalmente conseguiu rir, um riso verdadeiro, o Silêncio se despedaçou em mil ecos — e, pela primeira vez, os habitantes daquele lugar sentiram que também poderiam falar sem medo.
Íris seguia, agora não apenas conseguindo enxergar, mas também falar e expressar e os habitantes do vale perceberam que a coragem de dizer o que vai dentro de nós, de expressar nossa verdade é capaz de mover montanhas.