25/04/2026
AS ILHAS PERDIDAS E O 25 DE ABRIL
Na manhã de 25 de Abril de 1974, encontrava-me à porta da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Foi pela voz do Sr. Manuel — protagonista do primeiro episódio do primeiro volume de Ilhas Perdidas (*) — que ouvi as primeiras notícias do que se passava nesse dia.
“Parece que derrubaram o Governo. Agora, ao certo, ninguém sabe o que se está a passar…”
“Derrubaram o Governo? Quem?…”
“Quem havia de ser? Só pode ser um golpe da extrema-direita contra o Caetano... A esquerda, neste país, tem alguma hipótese?” — acrescentou um colega que entretanto se juntara ao pequeno grupo que se ia formando no átrio da Faculdade, entre a perplexidade e a ansiedade.
Nunca me passara pela cabeça ir viver para os Açores. O meu destino parecia traçado há muito: Angola, terra da minha mãe e cenário de 35 anos de vida profissional do meu avô, inspetor do Caminho de Ferro de Benguela.
Mas é a vida que decide por nós.
Na sequência da revolução, não rumei a África. Rumei às ilhas.
E é essa, no fundo, a origem de Ilhas Perdidas.
Não fora o 25 de Abril, e o livro nunca teria sido escrito — porque eu nunca teria partido para o lugar onde aconteceram todas as histórias que lhe deram vida.
(*) Ilhas Perdidas, vol. I, cap. 1. O Sr. Manuel”, p. 21.