05/03/2026
A SRNOM manifesta as suas mais sentidas condolências à família, amigos e leitores pelo falecimento de António Lobo Antunes, médico e um dos maiores nomes da literatura portuguesa. O seu legado humano e literário permanecerá como uma referência incontornável na nossa memória coletiva.
A morte de António Lobo Antunes recorda-nos não apenas um dos maiores escritores portugueses das últimas décadas, mas também um médico cuja forma de olhar o mundo mostra que nunca deixou verdadeiramente de o ser.
Cresceu num ambiente profundamente marcado pela medicina — filho de médico, rodeado de irmãos que seguiram a mesma profissão — onde o contacto com a doença, o sofrimento e a fragilidade humana faziam parte da própria atmosfera familiar. Essa convivência precoce com a vulnerabilidade da vida parece ter deixado uma marca duradoura na forma como observava as pessoas e as histórias que depois, genialmente, resultaram em literatura.
Talvez por isso, na sua obra, a condição humana surge tantas vezes despida de ilusões. As suas personagens movem-se frequentemente entre a memória, a dor, a culpa ou a perda, como se a escrita fosse também uma forma de auscultar a alma humana. Há nesse olhar algo de clínico, no melhor sentido da palavra: uma atenção persistente às zonas mais frágeis da existência.
A própria experiência de António Lobo Antunes como médico na guerra colonial, confrontado muito cedo com o sofrimento extremo e com a proximidade da morte, terá contribuído para essa tonalidade particular da sua escrita. Mais tarde, também como doente, conheceu de perto a outra margem da medicina — a de quem observa a doença a partir de dentro —, experiência que atravessa discretamente, mas muito presente, em alguns dos seus textos e reflexões.
Entre o médico que aprendeu a escutar o sofrimento humano e o escritor que o transformou em linguagem, construiu-se uma obra singular, onde a literatura parece muitas vezes prolongar a interrogação fundamental: o que significa, afinal, ser humano perante a fragilidade, o tempo e a morte?
Como diz outro poeta, também médico,
“De que servem lamentos e protestos contra o destino?
Cego assassino a que nenhum poder limita a crueldade,
só o pode vencer a humanidade
da nossa lucidez desencantada."