18/03/2023
[8ª parte sobre a aporofobia, sobre as ações do Padre Julio Lancellotti] "...A pobreza é sempre um fator relevante para a discriminação, pois a pobreza é vista como uma diferença positiva, pelos propensos que a identif**am em alguém.
E isto signif**a, apenas, que uma pessoa que aprecia a probreza alheia -a maioria - pensa que está a ganhar da outra, segundo seus próprios juízos, no jogo neoliberal da vida, por julgar ter melhor posição e recursos, e ter mais possibilidades do que ela.
Ela, assim, não deveria ter o que temer, pois está em vantagem, supostamente.
Mas, é justamente pela manutenção desta vantagem que poderá haver uma reação contrária.
E, isto só ocorre quando se percebe que, para além da diferença positiva, há também ameaças que vem dos que estejam em condição de pobreza.
O bondoso e corajoso padre paulistano Julio Renato Lancellotti, que desenvolve um amplo trabalho de caridade na região central mais crítica da Cidade de São Paulo, que é conhecida por Cracolândia, leva refeições, roupas e medicamentos aos que estão em condição de desabrigados.
Seu trabalho é impactante e, obviamente, criticado pelos moradores da região, que sofrem constrangimentos reais causados pelos que frequentam a região, pela insegurança com que passaram a viver, além da desvalorização de seus imóveis, da decorrente restrição em suas liberdades para ir e vir, pela insegurança e barulhos, da violência provocados pela desordem dos desabrigados e pelas ações da Polícia.
Afinal, é tal qual uma zona de guerra, com total instabilidade urbana – deixou de ser parte da cidade, nem cidade mais é, mas sim um território em busca de um destino improvável, pois nem espaço público definido existe mais – é o caos.
O trabalho do Padre é pautado pelos preceitos da caridade incondicional, do amor cristão e dos valores mais nobres.
Há que se considerar, nesta questão, que não há nenhuma incoerência nas reclamações dos residentes, mas por outro lado nem nas ações do Padre, visto que ambos estão posicionados a partir de suas ideologias, perspetivas, de seus espaços públicos que não conseguem fazer valer como tais.
Pois, todas as suas intenções são conflituosas no território, que é hostil às duas formas de espaços públicos conceituados previamente ocorrerem em simultaneidade, antes mesmo de partirem para o território são antagónicos, o que gera uma “péssima versão” de um projeto inviável de cidade.
Não se pode, também, esquecer que há o espaço público dos que buscam a droga, viciados nela, sem serem desabrigados, mas que lá passam diuturnamente para garantirem a dose de seus vícios.
E, também a perspetiva dos traf**antes, que lá estão a fornecerem as dr**as e, incrivelmente, colocar limites ao caos instaurado.
E, claro, há a da polícia.
E também há a dos políticos e gestores urbanos.
E de todo o resto.
E a conjunção disto tudo resulta nesta calamidade que é a região da Cracolândia, que se transforma, constantemente.
Por vezes, melhora, depois piora, de tempos em tempo, sempre entre extremos.
O padre faz o "bem", mas não para os moradores, que também não são "maus", todavia, por serem contra a ajuda do pároco.
Há que se perceber, em casos assim, que os limites entre os desprovidos moradores de rua e os “ameaçadores” moradores e poderes públicos são confusos, pois o desprovido de tudo, até do teto, são, antes de qualquer coisa, alguém que percebe a extrema diferença negativa em que se encontra e, por isso, pode ser o que mais esteja disposto a cometer um ato criminoso, ainda mais provável devido à dependência química, em grave condição mental que o vício causa.
É um risco real, com casos e casos letais já ocorridos que provam que nada ali é mascarado.
Uma realidade sem distorções, e crescente, que não se pode ser mais escondida para baixo dos tapetes sociais.
E isto levou os moradores a intensif**arem suas proteções, como se eles mesmo passassem a viver aprisionados, em bunkers, a não terem mais espaço territorial para além de suas dependências e, assim, f**arem eles desalojados de sua própria cidade.
Desta forma, ajudar a tais desabrigados é algo que dividem, radicalmente, duas posições completamente antagônicas.
E ambos os lados com suas razões lícitas.
A questão não é meramente territorial, do habitar, mas verdadeiramente de cidadania, de direito ao coabitar.
E o problema são as grandes ameaças que estes que estão em situação de moradores de rua e que são viciados possuem, sem representarem nenhuma possibilidade para os demais.
Situações similares a estas, em que alguns dos desabrigados não são viciados, mas sim “apenas” pobres, tem ocorrido com maior frequência.
E, nestes casos, a disposição para a ajuda é unânime e os mesmos que se opõem às ações do pároco logo passam a apoiá-lo, caritativamente.
Um destes casos foi de um desabrigado, que estava a dez dias a morar nas ruas, por não ter tido o emprego que lhe foi prometido em São Paulo, pois veio de Foz do Iguaçu em busca desta oportunidade.
Enganado, sem dinheiro, não teve outra opção a não ser vagar pelas ruas.
O Projeto Caminhos, apoiado pelo Padre Julio, identif**a casos assim e mobiliza recursos para enviar os desabrigados para suas casas ou, ainda, dar-lhes melhores condições para se reintegrarem à sociedade.
E, ainda que muitos ajudem com dinheiro e outros recursos, ainda que nem todos, não há resistências aos trabalhos realizados para reabilitar os moradores de rua para suas melhores condições de vida.
Pois, o que fazem os voluntários do projeto, é justamente dar possibilidades aos desabrigados e, assim, minimizarem neles as ameaças que estavam a representar.
E, ao dar possibilidades, tudo muda, o desequilíbrio se desfaz um pouco.
A pobreza continua, mas passam a terem o que não tinham: portas abertas para a cidade, para se reintegrarem e coabitarem.
Vislumbram a hospitalidade que antes lhes era negada..." (segue)
Leandro Ortolan
em 18/mar/2023
[Notas]
Estas são considerações de um filósofo selvagem, dentro de uma certa perspetiva, sem nenhuma pretensão de alcançar uma verdade universal.
Portanto, pode ser que sim, pode ser que não. Ou ambos, conforme as perspetivas.
Pode haver um pouco de verdade, e talvez um pouco de mentira. Ou nada.
Se há mentira? Talvez, mas só um pouquinho. Pois, assim, nunca confiará prontamente no que está a ler aqui, e sempre lhe será necessário refletir mais sobre isto tudo. E isso é muito útil!
Para tudo, ou quase tudo, há um propósito. E cabe a você descobri-lo.
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