31/03/2026
Havia um Mundo igual ao Nosso
Era uma vez um mundo muito parecido com o nosso.
Nesse mundo, as pessoas acordavam todos os dias, levantavam-se, corriam para as suas tarefas, preocupavam-se com mil coisas… mas quase ninguém parava para perguntar algo muito simples:
“Quem sou eu realmente?”
Era como se uma névoa suave tivesse coberto a memória de todos.
Não era uma névoa visível, mas sentia-se nas conversas, nas notícias, nas ruas apressadas.
As pessoas começaram, pouco a pouco, a viver em piloto automático.
Falavam muito de medo.
Falavam muito de problemas.
Falavam de guerras que estavam longe, de crises que talvez viessem, de perigos que talvez existissem.
E quanto mais falavam disso, mais essas ideias cresciam.
Era como se o mundo fosse um grande jardim…
mas, sem perceber, as pessoas estivessem sempre a regar as ervas daninhas.
Assim, o jardim começou a mudar.
As cores ficaram mais cinzentas.
Os sorrisos ficaram mais raros.
E muitos passaram a acreditar que aquele era simplesmente o único mundo possível.
Mas algo curioso estava prestes a acontecer.
Num certo dia — ninguém sabe bem onde começou — uma pessoa parou.
Talvez estivesse sentada num banco de jardim.
Talvez estivesse a olhar o céu.
Talvez estivesse apenas cansada de tanto ruído.
E pela primeira vez em muito tempo, essa pessoa perguntou a si mesma:
“E se eu puder escolher o que alimentar no mundo?”
Nesse momento, algo dentro dela despertou.
Ela começou a reparar em pequenas coisas.
Escolheu ouvir uma música que lhe dava paz.
Escolheu ajudar alguém sem motivo.
Escolheu desligar uma notícia que lhe enchia o coração de medo.
E algo muito estranho aconteceu.
Dentro dela nasceu uma sensação de leveza.
E essa leveza mudou o seu olhar.
Quando sorria para alguém, essa pessoa sorria de volta.
Quando ajudava alguém, aquela pessoa também ajudava outro.
Sem perceber, aquela primeira pessoa tinha feito algo muito simples…
Mudou a sua frequência.
E as frequências, como as ondas na água, espalham-se.
Outra pessoa reparou.
Depois outra.
Depois mais uma.
Alguns começaram a escolher melhor as palavras que diziam.
Outros começaram a escolher melhor aquilo que viam, ouviam e partilhavam.
Começaram a perguntar:
— Isto que estou a alimentar… cria o mundo que eu quero viver?
E, pouco a pouco, algo incrível começou a acontecer.
As pessoas começaram a lembrar-se.
Lembrar-se de que tinham poder.
Lembrar-se de que cada pensamento é uma semente.
Lembrar-se de que cada gesto muda o campo à sua volta.
O jardim começou a transformar-se.
Onde antes havia desconfiança, começaram a nascer gestos de cooperação.
Onde havia medo, surgiram pessoas corajosas o suficiente para escolher a paz.
E como um fogo suave que se espalha pela noite, esse despertar começou a viajar de coração em coração.
Não foi de um dia para o outro.
Mas foi inevitável.
Porque quando alguém se lembra de quem é…
acende uma luz.
E quando muitas luzes se acendem…
o mundo inteiro começa a mudar.
E dizem que esse novo mundo não apareceu de repente.
Ele nasceu dentro das pessoas primeiro.
Porque no dia em que muitas delas se lembraram de quem eram…
descobriram algo extraordinário:
o mundo nunca esteve separado delas.
Ele sempre esteve a ser criado por cada uma.
Carla Viegas