15/03/2026
O crescimento de discursos e atitudes de ódio dirigidos às mulheres, nestas gerações mais jovens, pode ser pensado, numa perspetiva psicanalítica, como um sintoma de transformações profundas na forma como os vínculos afetivos se constroem na sociedade contemporânea.
Mais do que procurar culpados, importa olhar para as condições sociais e culturais que moldam hoje as primeiras experiências de relação.
A psicanálise recorda-nos que a vida psíquica se estrutura a partir das relações iniciais de cuidado e dependência. Nos primeiros tempos de vida, a criança precisa de um ambiente suficientemente estável, disponível e emocionalmente responsivo para desenvolver um sentimento básico de segurança - não se trata de uma perfeição impossível, mas da existência de uma presença que consiga acolher as necessidades e as frustrações próprias do desenvolvimento.
Contudo, a sociedade atual cria frequentemente condições pouco favoráveis à construção desses vínculos. Ritmos de vida acelerados, precariedade económica, exigências profissionais intensas, isolamento das famílias nucleares e a ausência de redes de apoio (já para não fala de adultos dissociados viciados em tecnologia para regulação emocional) dificultam a disponibilidade emocional necessária para sustentar relações profundas e consistentes com as crianças.
Quando o ambiente emocional se torna frágil ou instável, a criança pode crescer com dificuldades em integrar experiências de dependência, frustração e ambivalência. A vulnerabilidade, que é uma dimensão inevitável das relações humanas, acaba por poder ser vivida como algo ameaçador ou intolerável - em vez de ser reconhecida e pensada, tende a ser negada ou projetada para fora.
Neste contexto, a figura feminina — frequentemente associada, a nível simbólico, à maternidade, ao cuidado e à dependência — pode tornar-se um alvo privilegiado para a projeção dessas tensões internas. O ódio às mulheres pode então aparecer como uma tentativa de rejeitar ou atacar aquilo que lembra a dependência primordial e a necessidade de vínculo. Trata-se, muitas vezes, de uma defesa psíquica contra sentimentos precoces de desamparo, frustração ou fragilidade que não encontraram espaço para ser elaborados.
Paradoxalmente, quanto mais uma cultura valoriza a autossuficiência, o controlo e a invulnerabilidade, mais difícil se torna reconhecer a importância fundamental da dependência e do cuidado na constituição do sujeito. Quando estas dimensões são desvalorizadas ou invisibilizadas, aquilo que lhes está associado — o cuidado, a maternidade, o feminino — pode tornar-se objeto de desdém ou ataque.
Pensar o crescimento da misoginia a partir desta perspetiva não signif**a justif**ar o fenómeno, nem reduzir a sua complexidade a um único fator. Signif**a, antes, reconhecer que o ódio raramente surge no vazio: ele inscreve-se em histórias de relação, em contextos sociais e em modos de organização da vida coletiva. Compreender como a fragilização dos vínculos e a pobreza afetiva das sociedades atuais contribuem para estas dinâmicas pode abrir espaço para respostas mais profundas — não apenas no plano individual, mas também no modo como organizamos a vida em comum e cuidamos das gerações que crescem.
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