30/11/2025
Deixo aqui o artigo completo do Jornal Médico que não está em livre acesso
“Estou cheio de sono, mas não quero dormir!”: sobre o sono e a PDAH
A Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade (PDAH) caracteriza-se por um padrão persistente de desatenção, hiperatividade e impulsividade, que interfere de forma significativa no funcionamento social, académico e ocupacional do indivíduo. Esta perturbação do neurodesenvolvimento tem uma prevalência de 5% em idade pediátrica e estima-se que entre 50 a 74% destes doentes apresentem problemas de sono.
Um sono não reparador tem um impacto negativo na saúde, particularmente na idade pediátrica, com consequências físicas, fisiológicas, cognitivas e emocionais, diminuindo a qualidade de vida da criança e da sua família. Algumas das manifestações da privação de sono – como a agitação, impulsividade e dificuldades de concentração – podem assemelhar-se às manifestações da PDAH, pelo que definir se os sintomas se devem à primeira, à segunda, ou a ambas, pode ser um desafio na prática clínica.
A origem neurobiológica da PDAH é conhecida, resultando do desequilíbrio do metabolismo da dopamina e da noradrenalina, neurotransmissores que desempenham um papel fundamental na regulação da atenção e no ciclo sono-vigília. No entanto, este desequilíbrio não é, por si só, suficiente para justificar as alterações do sono encontradas nesta população, crescendo a evidência que os doentes com PDAH têm dificuldade em manter o seu ritmo circadiano por uma perturbação na libertação de melatonina.
Os problemas de sono mais frequentemente relatados pelos pais de crianças com PDAH incluem a maior resistência em ir para a cama (pedem para brincar “só mais um bocadinho”, ou para ler “só mais uma história” várias vezes), o aumento da latência do sono, um sono agitado, fragmentado por despertares frequentes e dificuldade no despertar matinal. Estas crianças dormem, em média, menos 30 a 60 minutos do que a população em geral.
Na consulta de neurodesenvolvimento do doente com suspeita de PDAH, devem ser ativamente questionadas as características do sono: como é a rotina de ir para a cama? Quanto tempo é que a criança demora a adormecer (idealmente menos de 30 minutos)? Tem despertares noturnos e quanto tempo duram? Movimenta-se muito para adormecer, ou enquanto está a dormir? Tem roncopatia ou outros sintomas sugestivos de apneia obstrutiva do sono? Como é o despertar matinal? Tem sonolência diurna (que a criança pode tentar ultrapassar com o excesso de atividade motora)?
A colheita de dados na anamnese deve, ainda, incluir informação detalhada sobre a utilização de ecrãs (conteúdo, duração e horário – a luz azul tem um efeito inibidor na libertação da melatonina, pelo que a utilização de ecrãs na hora imediatamente antes de ir para a cama vai provocar um atraso na fase do sono) e o consumo de estimulantes (alimentos, bebidas ou fármacos, incluindo os psicoestimulantes usados no tratamento da PDAH, que devem ser titulados de forma a obter o melhor efeito terapêutico com o mínimo de efeitos secundários – um dos quais é a dificuldade para adormecer).
O exame físico pode também fornecer pistas valiosas para o diagnóstico, para o diagnóstico diferencial e na identificação de comorbilidades, como sinais sugestivos de atopia ou hipertrofia amigdalina que podem condicionar uma obstrução da via respiratória.
O tratamento das perturbações do sono deve começar pela adoção de medidas comportamentais de higiene do sono, estabelecendo rotinas de sono apropriadas à idade, regulares e relaxantes, num ambiente calmo, escuro, sem ecrãs e sem consumo de estimulantes antes de dormir.
Nos casos em que as medidas comportamentais estão otimizadas mas são, ainda assim, insuficientes, a intervenção farmacológica pode ser uma ferramenta útil, nomeadamente pela prescrição de melatonina. A melatonina de ação imediata é útil nos casos de atraso da fase do sono. Recentemente, a Agência Europeia do Medicamento aprovou a melatonina de libertação prolongada para crianças com PDAH (já o havia feito anteriormente para as Perturbações do Espetro do Autismo) em que as medidas de higiene do sono não são suficientes – esta formulação permite mimetizar a libertação endógena de melatonina ao longo do período noturno, com potencial para melhorar as características do sono, (não apenas a latência, mas também a continuidade e duração total do sono noturno), com possível impacto positivo no comportamento e qualidade de vida das crianças e das suas famílias.
As perturbações do sono nos doentes com PDAH devem ser ativamente investigadas e tratadas, pois só assim será possível otimizar os resultados da intervenção em neurodesenvolvimento.