28/03/2026
Do ponto de vista psicológico, não se trata de discutir questões legais, como a Eutanásia, mas o que está por detrás da tentativa de suicidio- que levou a Noélia a f**ar paraplégica e levou ao limite o seu sofrimento, que já antes era insuportável.
Quantas “Noélias” vivem hoje entre nós — invisíveis?
Não nas estatísticas.
Não nos headlines.
Mas nas consultas, nas suas casas, nos locais de trabalho…
Em silêncio.
E a pergunta desconfortável é esta:
Estamos realmente atentos — ou apenas reagimos quando já é tarde demais?
Do ponto de vista científico, sabemos que o comportamento suicidário não é um fenómeno súbito. É um processo.
Um processo que, na maioria dos casos, começa muito antes — em experiências adversas precoces, em trauma relacional, abandono, negligência, abuso sexual e em ausência de vinculação segura.
Sabemos também que estas experiências moldam o cérebro: alteram circuitos de stress, impactam a regulação do sistema nervoso, influenciam sistemas neuroquímicos como a serotonina e a dopamina e comprometem a capacidade de regulação emocional e construção de sentido. Isto não é opinião. É evidência.
E, ainda assim, continuamos a agir como se o sofrimento fosse episódico - quando ele é, na verdade, cumulativo e estrutural.
Intervimos na crise.
Mas falhamos no processo.
Medicalizamos sintomas.
Mas ignoramos histórias.
Prolongamos vidas.
Mas nem sempre conseguimos devolver signif**ado à existência.
E aqui está o ponto que nos deve inquietar:
Quantas pessoas apenas sobrevivem?
Quando o sofrimento se torna crónico, não integrado e sem rede de suporte consistente, deixa de ser apenas dor.
Passa a ser identidade. Passa a ser a forma como a pessoa existe no mundo. E nesse estado, o desejo de morrer raramente é sobre morrer. É sobre cessar uma experiência interna de sofrimento que se tornou devastadora e insuportável.
A questão que este caso levanta não é confortável, nem deve ser:
Estamos a construir sistemas de saúde mental que verdadeiramente acompanham e atuam na causa raíz ou apenas tentam evitar o pior desfecho no curto prazo?
Porque há uma diferença — clínica e ética — entre manter alguém vivo e ajudar alguém a voltar a sentir que viver faz sentido.
Talvez seja tempo de irmos além da intervenção reativa e começarmos a falar seriamente de prevenção profunda, trauma, vínculo e signif**ado. Porque, na prática clínica, sabemos isto com clareza:
O sofrimento ignorado não desaparece.
Organiza-se.
No corpo.
No cérebro.
Na história interna de cada pessoa.
Talvez o maior fracasso não seja quando alguém deixa de querer viver.
Mas quando ninguém percebeu a tempo, que essa pessoa já não se sentia viva.