24/03/2026
O diagnóstico de tonturas que a maioria dos médicos ignora: o mundo oculto da enxaqueca vestibular.
Porque é que não precisa de dor de cabeça para ter enxaqueca — e como isso muda tudo no diagnóstico e tratamento.
No final da consulta, quando um paciente descreve uma tontura sem grande explicação — episódios intermitentes, sensibilidade ao movimento, sensação de desequilíbrio apesar dos exames "normais" — há muitas vezes uma questão mais profunda por detrás de tudo isto:
E se não for apenas um problema vestibular... mas sim um problema de enxaqueca?
A enxaqueca vestibular é uma das causas mais comuns — e mais negligenciadas — de tonturas. Situa-se na intersecção da neurologia e da fisiologia vestibular, apresentando-se frequentemente de formas que confundem as categorias diagnósticas tradicionais. E por isso, muitas vezes passa despercebida.
Não Precisa de Ter Dor de Cabeça para Ter Enxaqueca Vestibular
Um dos pontos mais importantes — e mais incompreendido — é o seguinte:
Não precisa de ter dor de cabeça para ter enxaqueca vestibular.
É aqui que muitos diagnósticos falham.
Embora a enxaqueca vestibular partilhe a mesma biologia da enxaqueca tradicional, os sintomas nem sempre incluem dor de cabeça. Na verdade, muitos doentes apresentam:
Vertigem sem dor de cabeça
Tonturas crónicas sem dor de cabeça típica da enxaqueca
Sensibilidade ao movimento como queixa principal
Sobrecarga visual sem pressão na cabeça
Isto gera confusão — tanto para os doentes como para os médicos.
Porque, se não há dor de cabeça, muitas vezes não é diagnosticada como enxaqueca.
Mas o cérebro não precisa de dor para expressar a fisiologia da enxaqueca. Por vezes, ele expressa-a através do equilíbrio.
Uma condição que não se apresenta da mesma forma duas vezes
A enxaqueca vestibular não se manifesta com um quadro clínico único e definido. Trata-se de um espectro.
Na sua essência, envolve episódios de tonturas ou vertigens associados à biologia da enxaqueca — mas estes episódios podem variar bastante.
Os doentes podem apresentar:
Vertigem espontânea ou tonturas posturais breves
Sensibilidade ao movimento da cabeça
Intolerância ao movimento visual (ambientes movimentados parecem esmagadores)
Desequilíbrio persistente
Sensação de que o cérebro “não consegue acompanhar” o movimento
Alguns doentes apresentam crises episódicas claras. Outros desenvolvem sintomas mais crónicos e persistentes.
Esta variabilidade é um dos principais motivos pelos quais o diagnóstico é frequentemente errado.
O Problema do Diagnóstico Errado
Como a enxaqueca vestibular nem sempre segue as "regras", é frequentemente diagnosticada com outros diagnósticos.
Os diagnósticos errados comuns incluem:
Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB)
Tontura postural-percetiva persistente (TPPP)
Tontura relacionada com a ansiedade
Sintomas neurológicos funcionais
Embora estes diagnósticos possam descrever partes da experiência, muitas vezes não identificam a causa subjacente.
A enxaqueca vestibular não é apenas um distúrbio do ouvido interno.
É um distúrbio de como o cérebro processa a informação sensorial.
O Sistema de Equilíbrio do Cérebro: Um Problema de Integração
O cérebro integra constantemente três fluxos principais de informação:
O sistema vestibular (movimento e equilíbrio)
O sistema visual (o que vemos)
O sistema somatossensorial (a nossa posição no espaço)
Na enxaqueca vestibular, esta integração torna-se instável.
Os sinais deixam de alinhar perfeitamente. O cérebro começa a apresentar discrepâncias — entre o movimento e a perceção, entre a expectativa e a realidade.
Esta discrepância pode produzir:
Vertigem sem movimento
Sensibilidade ao movimento sem instabilidade
Sobrecarga visual em ambientes complexos
Sensações persistentes de desorientação
Este não é um problema exclusivo do ouvido interno.
É um problema de rede.
O Cérebro da Enxaqueca (Sem a Dor de Cabeça)
Por detrás desta disfunção sensorial está a biologia clássica da enxaqueca.
A enxaqueca vestibular partilha os mesmos mecanismos subjacentes que a enxaqueca tradicional:
Ativação do sistema trigeminovascular
Processamento talâmico e cortical alterado
Desregulação da filtragem sensorial
Envolvimento do cerebelo e do tronco cerebral
Uma molécula-chave destaca-se: o CGRP (peptídeo relacionado com o gene da calcitonina) — um fator central na sinalização da enxaqueca.
Isto leva a uma perceção clínica crucial:
Mesmo quando a tontura é o principal sintoma, a condição comporta-se como uma enxaqueca.
Porque se sobrepõe a outros diagnósticos?
A enxaqueca vestibular raramente ocorre isoladamente. Sobrepõe-se frequentemente a outras condições, especialmente:
Vertigem Postural-Perceptual Persistente (PPPD)
Doença de Ménière
Muitos doentes com PPPD apresentam uma biologia subjacente da enxaqueca que nunca foi totalmente reconhecida. O que começa como tonturas episódicas pode evoluir para hipersensibilidade sensorial crónica.
Da mesma forma, a enxaqueca e a doença de Ménière coexistem frequentemente, sugerindo mecanismos partilhados ou interativos.
Isto reforça um conceito importante:
A enxaqueca vestibular faz parte de uma rede de perturbações mais vasta — e não de um diagnóstico isolado.
Não Existe um Único Teste
Não existe um exame de imagem, um teste vestibular ou um resultado laboratorial que diagnostique definitivamente a enxaqueca vestibular.
As ressonâncias magnéticas são habitualmente normais.
Os te**es vestibulares podem ser normais ou inconsistentes.
O diagnóstico é clínico.
Depende do reconhecimento de padrões:
História de enxaqueca (mesmo que tenha ocorrido há anos)
Sensibilidade ao movimento ou intolerância visual
Tonturas episódicas ou flutuantes
Gatilhos como o stress, distúrbios do sono ou alterações hormonais
Sintomas que não correspondem aos achados estruturais
Por causa disso, muitos doentes passam anos sem um diagnóstico correto.
Trate o cérebro, não apenas a tontura
Uma das mudanças mais importantes na compreensão da enxaqueca vestibular é esta:
Trata-a como uma enxaqueca comum — mesmo que o sintoma principal seja a tontura.
As estratégias de tratamento incluem, geralmente:
Betabloqueantes (propranolol)
Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina)
Anticonvulsivantes (topiramato, valproato)
Moduladores dos canais de cálcio (flunarizina, quando disponível)
Estas abordagens demonstraram:
Reduzir a frequência da vertigem
Melhorar o funcionamento diário
Diminuir a carga geral dos sintomas
Opções adicionais:
Acetazolamida (em casos selecionados)
Botox para padrões de enxaqueca crónica
Terapias dirigidas ao CGRP (um dos avanços mais promissores)
As terapias com CGRP, em particular, demonstraram melhorias tanto nos sintomas da enxaqueca como nos sintomas vestibulares — confirmando ainda mais a biologia partilhada.
Um distúrbio da rede cerebral
Numa perspetiva mais ampla, a enxaqueca vestibular é melhor compreendida como um distúrbio das redes cerebrais.
Ela reflete:
Integração sensorial prejudicada
Previsão e sinalização de erros alteradas
Desregulação da função autonómica
Aumento da sensibilidade à entrada sensorial
É por isso que os doentes se sentem frequentemente:
Superestimulados
Desorientados
Desligados do ambiente
E porque é que tantos são informados de que não há nada de errado — quando claramente há.
O Ponto de Viragem
A mudança mais importante é o reconhecimento.
Porque, uma vez identificada a enxaqueca vestibular por aquilo que é, o caminho a seguir torna-se mais claro.
Não se trata de uma tontura aleatória.
Não é “apenas ansiedade”.
Não é um mistério sem solução.
Trata-se de um cérebro que processa o mundo de forma diferente.
E a parte animadora:
É altamente tratável.
Quando abordada na perspetiva da biologia da enxaqueca — em vez de uma disfunção vestibular isolada — o mesmo cérebro que se sente instável pode começar a estabilizar.
Não por meio da força.
Mas sim restaurando a forma como interpreta o movimento, a sensação e o mundo que o rodeia.
https://drtraster.substack.com/p/the-dizziness-diagnosis-most-doctors?fbclid=IwY2xjawQvMcxleHRuA2FlbQIxMQBicmlkETExSlg5OXVMeDlta3Zzek5tc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHlU-iq6k_nNvq6RerRskbBt_1S3tFJrZ8K2_GzsSa-yNizli3KMoUTH9mY2h_aem_fU6xc0P4Zr2Zr9miZgjknA
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