03/05/2026
Chamavam-lhe apenas mãe. Não porque não tivesse nome, mas porque a vida lhe foi apagando o resto.
A casa era pequena para tantas respirações. O ar parecia sempre quente, pesado, como se carregasse o cansaço dela. Havia sempre alguém a chorar, alguém com fome, alguém doente, alguém a chamar por ela. E ela respondia. Sempre. Mesmo quando o corpo já não obedecia, mesmo quando a cabeça parecia afundar-se num silêncio escuro.
Doze vezes grávida. Doze vezes a dar o corpo ao mundo. Nem sabia ao certo quantos filhos tinha — não porque não os amasse, mas porque o tempo e a exaustão confundiam tudo. Eram rostos, mãos pequenas, olhos que pediam mais do que ela podia dar.
A avó Chica sentava-se muitas vezes à porta, as mãos cruzadas no colo, o olhar perdido. Havia nela uma culpa que não cabia em palavras. Fora ela quem ensinara à filha que o dever vinha antes de tudo. Que o corpo não lhe pertencia. Que dizer não era pecado maior do que qualquer sofrimento.
— Mulher serve o marido — dizia-lhe, anos antes, com a firmeza de quem repetia o que aprendera também.
E ela acreditou.
Acreditou até aos trinta e três anos, quando o corpo finalmente disse basta. A menstruação cessou cedo demais, como se até a fertilidade tivesse desistido dela. Uma menopausa precoce, diziam. Para ela, foi apenas o fim de algo que nunca sentiu como escolha.
Mas o fim não trouxe descanso.
Trouxe dureza.
A mulher que antes baixava os olhos começou a olhar de frente. A voz, antes suave, ganhou arestas. Não era frieza — era sobrevivência. Tornou-se mais rígida, mais firme, quase como se vestisse uma pele que não era dela, mas que precisava para continuar.
Porque havia fome.
Havia medo.
Havia guerra.
— Fome, peste e guerra — murmurava ela, às vezes, como quem resume a vida numa frase que ninguém entendia completamente.
A violência deixara marcas invisíveis: palavras que cortavam, silêncios que esmagavam, mãos que não deviam tocar daquela forma. E, ainda assim, ela levantava-se todos os dias. Fazia comida quando havia o que cozinhar. Dividia o pouco em partes impossíveis. Protegia como podia, mesmo sem nunca ter sido protegida.
A avó Chica via tudo isso e carregava o peso nos ombros. Às vezes queria pedir perdão. Mas o perdão também lhe fora ensinado a calar.
E a filha… nunca pediu.
Porque já não havia espaço dentro dela para culpas antigas. Só para continuar.
Hoje, sou eu que olho para trás.
Sou eu, filha,neta, que te encontro nas histórias não ditas, nos silêncios pesados, nos gestos que atravessaram gerações sem nunca serem explicados. Vejo-te agora, avó — não apenas como mãe de tantos, não apenas como mulher endurecida pela vida, mas como alguém que suportou mais do que devia alguma vez ter sido pedido.
Partiste em dor.
E isso não se desfaz com palavras bonitas. Não se apaga. Não se corrige.
Mas eu vejo-te.
Vejo a menina que foste antes de te ensinarem a calar. Vejo a mulher que resistiu quando tudo à volta quebrava. Vejo a força que não escolheste, mas que tiveste de vestir todos os dias.
Eu ouço-te — mesmo no que nunca disseste.
E hoje, com a voz que talvez te tenha faltado, digo por nós duas:
Eu honro-te.
Eu amo-te.
E não te deixo desaparecer.
E há outro.
O avô.
Durante muito tempo, foi apenas uma sombra nas histórias — um nome dito baixo, um peso no ar. Ao meu olhar de criança, parecia não ter coração. E, de muitas formas, viveu como se não tivesse.
Não foi um homem de cuidado. Não foi um pai que alimentou ou protegeu. Foi ausência onde devia haver presença. Foi violência onde devia haver abrigo.
As suas mãos deixaram marcas que atravessaram corpos e gerações. Filha após filha, desde demasiado cedo, carregaram um silêncio imposto. Um silêncio que não era escolha, mas sobrevivência. Ninguém falou. Ninguém enfrentou. Não porque não soubessem — mas porque o medo, a dependência, e a herança de dor eram mais fortes do que qualquer palavra possível.
Lealdade à dor.
Lealdade à violência.
Um ciclo fechado sobre si mesmo.
E, ainda assim, a história não começa nele.
Também ele tinha sido ferido. Também ele vinha de um lugar onde o amor não soube existir.
E eu olho para esse rasto agora.
Esta história também é minha.
Corre no sangue, nas memórias, nos gestos que por vezes nem reconheço como meus. A dor da violência. A marca da violação. A sombra da infelicidade que tentou instalar-se como destino.
Mas aqui, algo muda.
Hoje, eu olho para ti, avô.
E eu vejo-te.
Vejo o homem que foste — inteiro, humano, marcado pela sua própria história.
E, ao ver-te, algo em mim liberta-se.
Todas estas lealdades terminam em mim.
O silêncio termina em mim.
A repetição termina em mim.
E, pela primeira vez nesta história que atravessou tantas vidas, há uma escolha que é realmente livre:
Eu escolho ter voz.
Eu escolho não perpetuar a dor.
Eu escolho ser feliz.
E nisso — talvez pela primeira vez — alguém nesta linhagem aprende o que é, finalmente, viver.