19/02/2026
Olá. Ainda sem net ou TV cabo mas já com electricidade da rede.
De Volta...
O que fazer e pensar face às adversidades?
A nossa vida altera-se. As rotinas alteram-se. A nossa consciência de uma nova realidade em confronto com quem não tem consciência do que passamos na realidade.
De onde vem a força que nos leva a levantar do chão, reconstruir e restabelecer toda a estrutura do nosso quotidiano, a nossa harmonia e o nosso equilíbrio mental?
Enfrentar uma adversidade profunda é como sofrer um naufrágio em terra firme. O horizonte que conhecíamos desaparece e o chão sob os nossos pés deixa de ser sólido. A reconstrução não é apenas um esforço físico de adoptar ou retomar rotinas, mas um processo metafísico de renegociar quem somos perante o que restou.
Forçosamente vivemos na prática essa anatomia da superação e o abismo que se cria entre a nossa nova consciência e o mundo exterior.
Quando a nossa vida sofre uma rutura, passamos a habitar uma frequência diferente da do resto do mundo. Surge um fenómeno de "surdez empática".
A incompreensão ou inconsciência alheia confunde-nos. Ver as pessoas preocupadas com futilidades ou rotinas banais enquanto o nosso mundo desabou leva a gerar uma espécie de isolamento. Não é pela sua (delas) maldade , é a sua (delas) incapacidade de ver a "nova cor" que a dor pintou na nossa visão.
A rotina não é apenas logística. Ela é o suporte da nossa identidade. Quando a rotina morre, uma parte de nós morre com ela. O desafio é aceitar que não voltaremos a ser quem éramos, mas sim alguém que integra a cicatriz na nova estrutura.
Entramos num luto de identidade. Como num funeral onde há uma homenagem de alguém que não queríamos homenagear por esse motivo, ou seja, pelo seu desaparecimento, mas que temos que o fazer.
Como se recupera? De onde vem a força? Como desperta o motor da resiliência?
A força que nos levanta do chão nem sempre é um relâmpago de coragem. É mais como uma corrente subterrânea que nunca parou de correr, que provém de fontes onde vamos beber.
A primeira é o instinto.
Por exemplo, tal como o corpo tenta curar uma ferida física, a nossa psique tem uma tendência natural para procurar o equilíbrio. É a teimosia biológica da vida que se recusa a estagnar instintivamente.
A segunda é o sentido ou motivo.
A força vem do porquê. Se encontramos um motivo (um filho, uma obra por concluir, ou a simples curiosidade de ver o amanhã), o como torna-se suportável.
A terceira é a memória da superação.
Muitas vezes, a força vem de olhar para trás e reconhecer que já sobrevivemos a "nãos" e quedas anteriores. A nossa estrutura mental é feita de camadas de superação, que como na cebola nos servem de protecção.
Mais uma vez, conseguiremos.
Retomar o Caminho para uma nova harmonia é então importante.
Reconstruir não é colar os cacos para que fiquem iguais ao original, mas sim reforçar a cerâmica tornando a peça mais forte e bela para que, fácilmente, não volte a ser quebrada e seja, de novo, apreciada.
Não se reconstrói uma vida num dia. O equilíbrio mental retoma-se ao dominar a primeira hora da manhã, depois a segunda, e assim sucessivamente.
Essa é a vitória do pensamento.
Face a quem não compreende a nossa nova realidade, o segredo é o desapego. Não precisamos que o mundo valide a nossa dor para que ela seja real. O silêncio e a paciência connosco próprios são as melhores ferramentas de restauro. A chamada protecção energética.
"O homem não é o produto das suas circunstâncias, mas sim das suas decisões perante essas circunstâncias."
A harmonia não é a ausência de caos, mas a capacidade de manter o centro e o equilíbrio enquanto o mundo gira de forma desordenada. A força que nos levanta é, em última análise, o reconhecimento de que, embora a nossa realidade tenha mudado, a nossa capacidade de atribuir significado à vida e ao Caminho permanece intacta.
Agora, a caminho...
De volta.
Joel Zig Faria - "A Caminho"
Fevereiro 2026