12/12/2021
Como é natural, tenho recebido muitos pedidos de opinião a propósito da vacinação para o SARS-CoV-2 nas crianças entre os 5 e os 11 anos.
Antes do mais, compreendo perfeitamente as angústias dos pais, perante a discussão pública sobre o assunto em que vários pediatras vêm a público manifestar opiniões divergentes. E em relação a isso, de forma muito clara, todas as entidades com responsabilidade para emitir recomendações sobre o assunto, nacionais e internacionais, concluem que a vacina é segura e reconhecem benefícios individuais da mesma - especificamente no grupo entre os 5 e os 11 anos.
Compreendo que os pais valorizem, claro, a opinião dos seus pediatras, daí ter decidido expor aqui a minha opinião: Sou completamente favorável à vacinação universal das crianças entre os 5 e os 11 anos.
Analisando os argumentos:
1. *Há claros benefícios clínicos individuais*
A incidência de doença grave COVID-19 aguda é muito baixa nestas idades, de facto e felizmente, e é necessário vacinar centenas de milhares de crianças para evitar um caso de COVID-19 agudo grave.
No entanto, a incidência de MIS-C, uma forma grave de doença pós-COVID exclusiva das crianças entre os 5 e os 17 anos é francamente superior. Será inferior a 1%, provavelmente bastante inferior, mas é uma forma grave de doença, com elevada probabilidade de internamento em Cuidados Intensivos, e com possibilidade de morte e de sequelas a longo prazo, nomeadamente cardíacas. Felizmente a mortalidade por MIS-C é baixa, e a incidência de sequelas também, mas um internamento em Cuidados Intensivos não é em si próprio uma situação isenta de riscos e benigna - é claramente algo a evitar.
Argumenta-se que não está demonstrado que a vacina previna MIS-C. É verdade que não está demonstrado (apesar de parecer provável) que a vacina impeça que os já vacinados que sejam infectados pelo SARS-CoV-2 desenvolvam MIS-C, mas está demonstrado de forma muito clara que a vacinação diminui muito a incidência da infecção pelo SARS-CoV-2. Assim, consequentemente, diminuirá a incidência de MIS-C. Por outro lado, o receio inicial de que a vacina possa em si desencadear MIS-C claramente não se verificou.
2. *Há benefícios individuais não clínicos*
As consequências sociais, escolares, psicológicas, emocionais, etc, da pandemia neste grupo etário têm sido terríveis. A vacinação será certamente um passo para diminuir estes efeitos. E, claro, têm que se ajustar os procedimentos de isolamento, testagem, etc, para permitir que estes efeitos se façam sentir.
3. *A vacina é segura* (felizmente na comunidade científica este ponto é ABSOLUTAMENTE consensual)
Já todos ouviram falar do estudo de segurança com menos de 2000 crianças neste grupo etário. Já não estamos nessa fase sequer: nos Estados Unidos já se vacinaram mais de 4 milhões de crianças entre os 5 e os 11 anos, sem significativos reportes de efeitos adversos. Já temos dados populacionais de larga escala que nos permitem afirmar categoricamente que a vacina é muito segura.
4. *Vacinar este grupo etário ajuda no controlo da pandemia*
Tem-se evitado usar este argumento (evitando que se diga que se devem vacinar as crianças para proteger os adultos), mas eu acho muito importante que, havendo evidente relação favorável do risco-benefício individual, se conseguimos obter benefícios populacionais não os devemos desprezar. Não sabemos quantas centenas de crianças têm que ser vacinadas para prevenir a morte ou o internamento em Cuidados Intensivos ou uma sequela de COVID-19 num adulto. Mas se o podemos fazer, sem comprometer a saúde das nossas crianças, porque não? Esse adulto será uma avó, um avô, um tio de uma dessas crianças vacinadas.
5.*Podem haver benefícios económicos*
Mais um argumento que tem sido evitado, por motivos semelhantes aos do ponto 4. Não disponho de estudos de impacto económico (nem sei se existem), mas imagino que considerados os gastos em saúde, os impactos na abstinência laboral, os impactos no comércio, etc, a vacinação das crianças entre os 5 e os 11 anos será provavelmente custo-eficaz. Mas quando a este ponto só posso teorizar.
6.*A vacinação das crianças não impede a disponibilização de vacinas para os adultos*
A vacina é distinta, numa dose menor, e portanto não concorre com a disponibilidade de vacinas para os mais velhos. Pode concorrer na disponibilidade dos serviços de vacinação, sim, e é algo a ter em conta por quem organiza a logística da vacinação, mas se bem organizado não acredito que atrase significativamente a vacinação dos mais velhos.
Não entrará, na vacina pediátrica, pelo mesmo motivo, a consideração de que se deverá dar prioridade à distribuição de vacinas nos países com menos poder económico.
Por todos estes argumentos, sem hesitação, eu recomendo a vacinação de todas as crianças entre os 5 e os 11 anos!