10/03/2026
Episódio 53 – Entre o medo da cirurgia e a esperança do tratamento, aquele segundo dia podia mudar tudo
Depois da noite atribulada do primeiro dia, finalmente nasce um novo dia. Era um dia muito esperado, porque seria o início do tratamento para tentar resolver a obstrução intestinal.
Tal como tinha referido no episódio anterior, depois das rotinas matinais de verif**ação dos parâmetros de saúde — tensão, temperatura, oxigenação — sou finalmente libertado da minha fiel companheira da noite anterior: a máquina que monitorizava constantemente o meu estado. Aproveito esse momento para poder fazer a minha higiene diária.
Enquanto isso, as auxiliares mudam os lençóis da cama e as enfermeiras passam pelo quarto para perguntar como passei a noite e como me sinto. Respondo com sinceridade: um pouco ansioso com o início do tratamento e ainda em adaptação a esta nova realidade que surgiu de forma tão inesperada.
Indicam-me onde posso ir buscar as toalhas para o banho. Quando chego lá percebo que, na verdade, são mais “mini toalhas” do que toalhas propriamente ditas. Ainda assim, serviriam para o que era preciso. Dizem-me que posso ir tomar banho quando quiser.
Mas tomar banho acaba por se tornar uma pequena aventura. Não posso molhar o catéter no braço, o que transforma uma tarefa simples num verdadeiro exercício de logística. Tento várias estratégias para conseguir lavar-me o melhor possível sem comprometer o catéter. No final, felizmente, a missão é cumprida: consigo tomar banho e o catéter sai ileso desta pequena batalha.
Regresso ao quarto e noto uma coisa positiva: o dia parece estar menos quente do que o anterior. Uma boa notícia.
Agora resta esperar pelo momento que tanto aguardava: o início da medicação.
Mas o tempo vai passando…
9h00…
9h30…
E ainda nada.
Às 9h45 entra finalmente no quarto o médico de gastroenterologia que me irá acompanhar durante o internamento. Pergunta-me como me sinto, se tenho dores e se tenho conseguido “fazer a minha vida”. Respondo a tudo com calma e digo-lhe que, felizmente, nessa manhã consegui ir à casa de banho normalmente — algo que para mim, e para os médicos, era um sinal positivo.
Depois de ouvir as minhas respostas, explica-me o plano:
Iria começar o tratamento com cortisona endovenosa em doses altas, com o objetivo de reduzir a inflamação e tentar resolver a obstrução sem necessidade de cirurgia.
Acrescenta ainda que na quarta-feira à tarde faria um raio-X, para avaliar se o intestino já estaria desobstruído.
Fico feliz por finalmente começar o tratamento. Mas, ao mesmo tempo, aquela informação sobre o raio-X deixa-me apreensivo. Aquele exame iria ser decisivo para determinar se conseguiria evitar uma cirurgia.
Pouco depois da conversa, entra a enfermeira e liga finalmente a medicação ao soro.
Aquele momento representava algo muito importante para mim: esperança.
Entretanto chegam os meus pais. A presença deles traz-me uma tranquilidade imediata. É impressionante como a família consegue tornar tudo um pouco mais suportável.
Não consigo deixar de pensar em como foi duro o período do COVID, quando as pessoas estavam internadas e não podiam receber visitas. Ou naqueles que são praticamente “deixados” nos hospitais e não têm ninguém que os vá ver. Deve ser uma solidão difícil de explicar.
A manhã passa rapidamente. O meu pai, como sempre, vai fazendo as suas piadas habituais e acaba por quebrar o gelo com os outros pacientes do quarto.
Por volta das 13h os meus pais vão embora. A tarde seria agora passada com a minha esposa.
Ela chega pouco depois e a presença dela muda completamente o ambiente do dia. Nunca lhe conseguirei agradecer o suficiente por tudo o que fez por mim neste período.
Passamos a tarde a conversar, a distrair-nos e a ver televisão. Estavam a dar os Jogos Olímpicos, o que ajudava a fazer o tempo passar. Neste dia ainda não falávamos da festa de Nossa Senhora das Dores que estávamos a ajudar a organizar como tesoureiros.
Por volta das 19h chega novamente a hora das despedidas. Ela vai para casa e eu fico novamente sozinho no quarto para enfrentar mais uma noite no hospital.
Mas desta vez havia algumas melhorias:
um catéter colocado numa zona mais confortável,
uma almofada que a minha esposa trouxe de casa,
e uma temperatura bem mais agradável.
Tudo parecia reunido para que aquela noite fosse mais tranquila. Ainda assim, ao adormecer, havia uma certeza que não me saía da cabeça: no dia seguinte, um simples raio-X poderia decidir o rumo da minha vida.
Apesar dessa inquietação, a noite acabou por correr melhor do que a anterior.
Quando acordei na manhã seguinte percebi que tinha chegado o dia D do internamento — o dia do raio-X que iria revelar se o tratamento estava, finalmente, a resultar.
Mas essa história…
f**a para o próximo episódio
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