Um farmaceutico com Crohn a história

Um farmaceutico com Crohn a história Farmaceutico, casado, pai de 2 filhas e doente de Crohn desde 2014. Adoro a minha familia, profissão e escrever.

Episódio 53 – Entre o medo da cirurgia e a esperança do tratamento, aquele segundo dia podia mudar tudoDepois da noite a...
10/03/2026

Episódio 53 – Entre o medo da cirurgia e a esperança do tratamento, aquele segundo dia podia mudar tudo

Depois da noite atribulada do primeiro dia, finalmente nasce um novo dia. Era um dia muito esperado, porque seria o início do tratamento para tentar resolver a obstrução intestinal.

Tal como tinha referido no episódio anterior, depois das rotinas matinais de verif**ação dos parâmetros de saúde — tensão, temperatura, oxigenação — sou finalmente libertado da minha fiel companheira da noite anterior: a máquina que monitorizava constantemente o meu estado. Aproveito esse momento para poder fazer a minha higiene diária.

Enquanto isso, as auxiliares mudam os lençóis da cama e as enfermeiras passam pelo quarto para perguntar como passei a noite e como me sinto. Respondo com sinceridade: um pouco ansioso com o início do tratamento e ainda em adaptação a esta nova realidade que surgiu de forma tão inesperada.

Indicam-me onde posso ir buscar as toalhas para o banho. Quando chego lá percebo que, na verdade, são mais “mini toalhas” do que toalhas propriamente ditas. Ainda assim, serviriam para o que era preciso. Dizem-me que posso ir tomar banho quando quiser.

Mas tomar banho acaba por se tornar uma pequena aventura. Não posso molhar o catéter no braço, o que transforma uma tarefa simples num verdadeiro exercício de logística. Tento várias estratégias para conseguir lavar-me o melhor possível sem comprometer o catéter. No final, felizmente, a missão é cumprida: consigo tomar banho e o catéter sai ileso desta pequena batalha.

Regresso ao quarto e noto uma coisa positiva: o dia parece estar menos quente do que o anterior. Uma boa notícia.

Agora resta esperar pelo momento que tanto aguardava: o início da medicação.
Mas o tempo vai passando…
9h00…
9h30…
E ainda nada.

Às 9h45 entra finalmente no quarto o médico de gastroenterologia que me irá acompanhar durante o internamento. Pergunta-me como me sinto, se tenho dores e se tenho conseguido “fazer a minha vida”. Respondo a tudo com calma e digo-lhe que, felizmente, nessa manhã consegui ir à casa de banho normalmente — algo que para mim, e para os médicos, era um sinal positivo.

Depois de ouvir as minhas respostas, explica-me o plano:
Iria começar o tratamento com cortisona endovenosa em doses altas, com o objetivo de reduzir a inflamação e tentar resolver a obstrução sem necessidade de cirurgia.
Acrescenta ainda que na quarta-feira à tarde faria um raio-X, para avaliar se o intestino já estaria desobstruído.

Fico feliz por finalmente começar o tratamento. Mas, ao mesmo tempo, aquela informação sobre o raio-X deixa-me apreensivo. Aquele exame iria ser decisivo para determinar se conseguiria evitar uma cirurgia.

Pouco depois da conversa, entra a enfermeira e liga finalmente a medicação ao soro.

Aquele momento representava algo muito importante para mim: esperança.

Entretanto chegam os meus pais. A presença deles traz-me uma tranquilidade imediata. É impressionante como a família consegue tornar tudo um pouco mais suportável.

Não consigo deixar de pensar em como foi duro o período do COVID, quando as pessoas estavam internadas e não podiam receber visitas. Ou naqueles que são praticamente “deixados” nos hospitais e não têm ninguém que os vá ver. Deve ser uma solidão difícil de explicar.

A manhã passa rapidamente. O meu pai, como sempre, vai fazendo as suas piadas habituais e acaba por quebrar o gelo com os outros pacientes do quarto.

Por volta das 13h os meus pais vão embora. A tarde seria agora passada com a minha esposa.

Ela chega pouco depois e a presença dela muda completamente o ambiente do dia. Nunca lhe conseguirei agradecer o suficiente por tudo o que fez por mim neste período.

Passamos a tarde a conversar, a distrair-nos e a ver televisão. Estavam a dar os Jogos Olímpicos, o que ajudava a fazer o tempo passar. Neste dia ainda não falávamos da festa de Nossa Senhora das Dores que estávamos a ajudar a organizar como tesoureiros.

Por volta das 19h chega novamente a hora das despedidas. Ela vai para casa e eu fico novamente sozinho no quarto para enfrentar mais uma noite no hospital.

Mas desta vez havia algumas melhorias:
um catéter colocado numa zona mais confortável,
uma almofada que a minha esposa trouxe de casa,
e uma temperatura bem mais agradável.

Tudo parecia reunido para que aquela noite fosse mais tranquila. Ainda assim, ao adormecer, havia uma certeza que não me saía da cabeça: no dia seguinte, um simples raio-X poderia decidir o rumo da minha vida.

Apesar dessa inquietação, a noite acabou por correr melhor do que a anterior.

Quando acordei na manhã seguinte percebi que tinha chegado o dia D do internamento — o dia do raio-X que iria revelar se o tratamento estava, finalmente, a resultar.

Mas essa história…
f**a para o próximo episódio





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🌙 Episódio 52 – A Primeira Noite de InternamentoCerca das 22h30, a ceia é servida aos meus companheiros de quarto. A mim...
20/01/2026

🌙 Episódio 52 – A Primeira Noite de Internamento

Cerca das 22h30, a ceia é servida aos meus companheiros de quarto. A mim, nada. Como já sabem, estou em jejum até se confirmar que a obstrução foi ultrapassada. Curiosamente, o facto de não comer pouco me afeta. O que realmente importa é que o intestino desobstrua e que eu continue sem dores.

E, felizmente, as dores desapareceram e nunca mais voltaram desde a manhã no Hospital da Trofa. Ainda assim, chega agora o verdadeiro desafio: enfrentar a primeira noite no hospital.

Sempre tive um receio enorme da ideia de f**ar internado. Só esse pensamento já me desestabiliza. Mas agora juntam-se mais fatores: a ausência de ar condicionado, o calor infernal que não dá tréguas nem à noite e a consciência de que, para dormir, não me poderei mexer muito. Tenho um cateter na dobra do braço e qualquer movimento mais brusco ativa o alarme da máquina do soro. Tudo isto aumenta a minha insegurança e ansiedade perante esta primeira noite.

O calor é intenso, mesmo já de noite. A única solução para tentar suportá-lo é dormir com as janelas abertas. Eu, que gosto de tudo escuro, vou ter exatamente o oposto. Deito-me e percebo imediatamente que a noite vai ser longa.

Cada movimento do braço direito transforma-se numa pequena aventura. Para além do cateter, há o fio do soro, que não se pode enrolar nem esticar demasiado. Se isso acontecer, o alarme dispara e tenho de chamar a enfermeira.

Primeira posição. Passado pouco tempo, o corpo pede mudança. Primeira aventura. Esqueço-me do fio, viro-me… e pronto. O fio torce, a máquina começa a apitar. Chamo a enfermeira.

O som do alarme traz outro pensamento imediato: “Estou a incomodar as pessoas que partilham o quarto comigo.” Essa ideia aumenta ainda mais a minha ansiedade e afasta-me do meu único objetivo: adormecer. Dormir seria a forma mais rápida de fazer a noite passar.

A enfermeira chega e, de forma muito simpática, desliga o alarme e dá-me algumas dicas para evitar que volte a acontecer. Tento novamente dormir.

Mas não há posição confortável. O calor não ajuda. O cateter e o fio continuam a ser uma preocupação constante. E ainda há a almofada do hospital… tão baixa, mas tão baixa, que parece nem existir. O pescoço começa a ressentir-se e a tensão acumula-se.

Percebo então que esta noite vai mesmo ser longa. Uma verdadeira aventura.

Com o avançar dos minutos — e depois das horas — a ansiedade cresce. Ainda assim, tento manter-me focado: dormir, descansar, aguentar. Finalmente, o cansaço vence. As poucas horas de sono acumuladas nos dois dias anteriores acabam por cobrar o seu preço… e adormeço.

Durmo até cerca das 4h da manhã. Acordo com o som da máquina. Dobrei o braço durante o sono e bloqueei a passagem do soro. Mais uma chamada à enfermeira. Ela vem, resolve a situação e eu tento voltar a adormecer, agora com receio de qualquer movimento que possa ativar novamente o alarme.

Felizmente, não volta a acontecer. Ainda assim, a sensação é clara: dormi pouco ou quase nada durante o resto da noite.

Consigo ver o nascer do sol. Pouco depois das 7h, as enfermeiras entram para os primeiros cuidados da manhã. Medem a temperatura, a tensão arterial e a glicemia. Informam-me que vão mudar a posição do cateter para uma zona do braço que não dobre, para que eu consiga descansar melhor nas próximas noites.

Agradeço, sinceramente. Sinto um pequeno alívio. Sobrevivi à primeira noite no hospital.

Envio uma mensagem à minha esposa a contar como correu. Começa então o segundo dia. O dia em que espero que finalmente iniciem a medicação, que a obstrução se resolva e que tudo fique bem.

Mas isso… f**a para o próximo episódio.

“Se esta história te tocou, partilha. Nunca sabemos quem pode estar a passar pelo mesmo.”

🩺 Episódio 51 –Uma luta no hospitalApós um longo percurso por corredores intermináveis, que pareciam não ter fim, chego ...
02/01/2026

🩺 Episódio 51 –Uma luta no hospital

Após um longo percurso por corredores intermináveis, que pareciam não ter fim, chego finalmente ao meu destino: uma cama na ala velha do Hospital de São João. Estamos no final de julho e o calor nesse dia é sufocante. O ar naquela zona do hospital é quase irrespirável, pesado, quente, opressor.

Fico numa cama junto à janela. No mesmo quarto estão mais dois homens, já de idade, cada um com a sua história — histórias essas que iria descobrir ao longo dos dias seguintes.

Coloco as minhas coisas no pequeno armário que me foi atribuído e troco a roupa do dia pelo pijama. É real. Estou internado. Curiosamente, estou sem dores, mas a minha cabeça, ao contrário do corpo, corre a mil à hora. Pensamentos que não param:
Quanto tempo vou f**ar aqui?
Será que o intestino vai desobstruir?
Vou aguentar vários dias neste lugar?
E quando f**ar sozinho, sem a minha família, como vai ser?
As perguntas ecoam dentro de mim, vezes sem conta.

Passados cerca de 30 minutos, chega a minha esposa. O rosto dela diz tudo — um misto de preocupação, determinação e coragem. Aproxima-se de mim e, de forma quase automática, sinto a minha própria coragem aumentar. Pergunta-me se já comecei a fazer medicação. Digo-lhe que ainda ninguém do internamento veio falar comigo.

A minha maior preocupação era precisamente essa: iniciar rapidamente a medicação. Eu sabia que, com ela, talvez o intestino pudesse desobstruir mais depressa e, assim, regressar mais cedo a casa. Em ambiente hospitalar, isso signif**aria, pelo menos, quatro dias de medicação.

Deito-me na cama. Passa quase uma hora e quinze minutos. Após a minha esposa ir falar com as enfermeiras, finalmente alguém vem ter comigo. Informam-me que ainda não existe medicação prescrita no sistema e que, para já, apenas me iriam colocar soro. Não poderia ingerir nada até existir confirmação de que o intestino estaria desobstruído.

Não comer até não me incomodava — desde que tudo f**asse bem. Mas com aquele calor… não poder beber nada era um verdadeiro desafio. Ainda assim, não havia alternativa.

A enfermeira explica-me que naquela ala existem três casas de banho, três chuveiros, troca diária de lençóis e alerta-me para algo que eu já tinha percebido: o calor seria uma constante, pois não existe ar condicionado.
Tento absorver toda a informação, mas o que realmente me importa é ver a medicação a entrar nas minhas veias. Isso, nesse primeiro dia, nunca acontece. Percebo então que, na melhor das hipóteses, a alta seria na sexta-feira e não na quinta. Mais um dia… 😔

Na televisão do quarto passam aqueles programas típicos das tardes de semana, como os da Júlia Pinheiro. Entre a conversa com a minha esposa, é isso que faço: olho para a televisão sem realmente a ver. O som serve apenas como companhia.
A minha esposa, sempre de mão dada comigo, volta a questionar as enfermeiras sobre a medicação. Desta vez, a resposta é mais rude: nada consta no sistema, contrariando a informação que o meu primo, gastroenterologista, me ia passando. Tivemos de nos resignar. O primeiro dia seria assim — apenas com soro.

Entretanto, como os meus pais aguardavam na sala de espera, a minha esposa cede o lugar. Cada despedida dela aumentava em mim um sentimento de impotência difícil de explicar. Tento transmitir-lhe uma força que eu próprio não tinha — e sei que ela também não.

Sobem os meus pais. O meu pai, no seu estilo brincalhão, começa logo a meter conversa com a enfermeira — que claramente não estava com grande disposição — e depois com os meus colegas de quarto. O objetivo era claro: quebrar o gelo. E consegue. E que importante é isso — comunicar, humanizar aquele espaço frio.

Mais tarde, a enfermeira regressa e coloca uma máquina ligada ao soro, responsável por controlar o débito. O problema é que, sempre que existe alguma obstrução, a máquina apita. À noite, eu, a máquina e os seus apitos iríamos viver uma verdadeira aventura… mas isso f**a para o próximo episódio.

A hora das visitas termina. Mais uma despedida. Dolorosa, mas rápida, para não doer ainda mais. Agora fico eu, o hospital, os meus medos e a incerteza de saber como iria aguentar todos aqueles dias.
Antes de me deitar, já com a minha esposa em casa, ligo-lhe para falar com as minhas filhotas. Ao ouvir as vozes delas, trémulas e assustadas, sinto um nó tão profundo na garganta que é impossível não chorar. Tento ser forte, mas não é fácil.

Depois do telefonema, preciso ir à casa de banho pela primeira vez. Não sei bem o que esperar, mas tenho de ir. Levo comigo o suporte com rodas onde está o soro e a tal máquina de controlo. Chego à casa de banho e levo mais um choque de realidade: as condições. Fazer necessidades transforma-se numa verdadeira aventura. O aparelho não cabe no espaço e passa a ser, inevitavelmente, o meu “porteiro” em cada ida à casa de banho.

Regresso ao quarto. As enfermeiras vêm medir a temperatura, a tensão arterial e a glicemia. Felizmente, tudo perfeito. Sem dores.

Chega a hora de dormir. Tomo um alprazolam para tentar descansar, mas sei que o calor, o ambiente hospitalar e tudo o que estou a viver irão dificultar a noite.
No próximo episódio, conto a aventura que foi esta primeira noite de calor infernal num hospital público...















25/12/2025

✨ Feliz Natal ✨

Quero deixar um agradecimento sincero a todos os que me acompanham, leem, comentam e partilham esta caminhada.

Cada mensagem, cada palavra de apoio e cada história partilhada desse lado faz com que Um Farmacêutico com Crohn – A História tenha ainda mais sentido.

Mesmo nos dias difíceis, saber que não estamos sozinhos faz toda a diferença.

Obrigado por fazerem parte desta comunidade 💜

🎧 Esta semana sai um novo episódio, com mais um capítulo real, sem filtros, desta história que também é de muitos.

Boas festas, com saúde, esperança e união.

Episódio 50 – A Entrada nas Urgências e o InternamentoChegamos ao estacionamento e seguimos em silêncio para as urgência...
09/12/2025

Episódio 50 – A Entrada nas Urgências e o Internamento

Chegamos ao estacionamento e seguimos em silêncio para as urgências de adultos do Hospital de São João. Era uma época do ano teoricamente mais calma, mas mesmo assim o ambiente estava longe de vazio. As urgências fervilhavam naquele caos organizado que é tão típico dos hospitais: passos apressados, tosses isoladas, cadeiras ocupadas por rostos cansados e um ar pesado feito de preocupações suspensas.

Apesar de tudo, eu estava um pouco melhor. As dores que me tinham atormentado durante dois dias, roubando-me quase todo o descanso e qualquer sombra de qualidade de vida, tinham abrandado graças à medicação do Hospital da Trofa. Mesmo assim, o cenário à minha volta lembrava-me constantemente que nada estava resolvido.

Faço a admissão e aguardo pela triagem. Sabia perfeitamente qual seria o desfecho — internamento — mas lá no fundo havia uma pequena réstia de esperança, quase infantil, de que talvez um milagre me poupasse. Despeço-me dos meus pais com um beijo rápido e um sorriso ensaiado, como se todos fingíssemos que éramos mais fortes do que realmente éramos. Depois sigo com a minha esposa para a zona mais próxima da sala de triagem.

A espera parecia que seria curta… mas enganou-me. Quarenta e cinco minutos transformaram-se numa eternidade. À minha volta, o sofrimento das outras pessoas começou a pesar mais do que eu queria admitir. Havia quem vomitasse, quem desmaiasse, quem estivesse tão frágil que doía olhar. Cada vez que a minha esposa me perguntava se eu estava bem, respondia que sim — como se a palavra “sim” conseguisse esconder o nó crescente que me apertava o peito. Mas não estava bem. O medo já tinha tomado o seu lugar dentro de mim.

Ia ser internado. Podia precisar de cirurgia ao intestino. Não sabia quanto tempo iria f**ar no hospital. Era como se cada uma destas frases ecoasse repetidamente na minha cabeça, criando um ruído constante impossível de silenciar.

Finalmente, oiço a enfermeira chamar pelo meu nome. Senti um arrepio — o momento estava ali, sem fuga possível. Despeço-me da minha esposa. Os olhos de ambos enchem-se de lágrimas, embora tentemos disfarçar, cada um a querer ser a força do outro. Beijamo-nos e prometemos que tudo vai correr bem, que em breve estaremos de novo juntos em casa com a nossa família. Ela pede-me para ir dando notícias, e entro na triagem com o coração apertado.

Entrego a carta do Hospital da Trofa, explico o que se passa, e a enfermeira coloca-me uma pulseira laranja. A cor doer-me-ia mais tarde: um lembrete da urgência, da gravidade, do caminho que estava prestes a percorrer. Sou encaminhado para a sala dos consultórios médicos e espero que me chamem.

Enquanto espero, vou enviando mensagens à minha esposa, mas por dentro desabo. A solidão amplif**a tudo — cada medo, cada receio, cada imagem que a minha mente insiste em criar. As lágrimas começam a escorrer-me pela cara sem que consiga controlá-las. Levanto-me rapidamente e refugio-me na casa de banho para não ser visto. E ali, sozinho, permito-me chorar. Com força. Com medo. Com tudo aquilo que até então tinha segurado.

Nas próximas horas, eu e os meus medos seríamos uma única companhia.

Falo com o meu primo gastroenterologista, enviando-lhe atualizações para garantir que tudo estava a ser feito como deveria. A enfermeira da triagem tinha dito que seria avaliado por cirurgia, mas quem aparece é um médico de gastroenterologia. Ele já tinha visto os exames e vai direto ao assunto: vou f**ar internado. Não serão necessários mais exames; os do Hospital da Trofa eram suficientes para todo o diagnóstico. Explica-me que vou iniciar doses altas de corticoides, na tentativa de evitar uma cirurgia e resolver a obstrução. E acrescenta uma frase que me atingiu como um murro no estômago: “Não pode ingerir nada, nem sólido, nem líquido. Vai ser alimentado por soro, endovenoso.”

Volto para a sala à espera de vaga no internamento. A enfermeira coloca-me um novo catéter no braço e regresso ao mesmo lugar onde tudo parecia mais pesado. Desta vez, com a certeza inabalável de que não havia volta a dar. Ia enfrentar um dos meus maiores medos: ser internado, e por tempo indefinido.

Enquanto espero, recebo um telefonema da minha patroa. Bastou ouvir a voz dela para as lágrimas voltarem a romper, juntamente com uma fraqueza que nunca tinha sentido na vida. Era como se cada palavra que ouvia me recordasse quão vulnerável estava.

O tempo passa devagar. Quase uma hora depois, finalmente chamam o meu nome:

— Pedro, vamos subir para o internamento.

E ali, naquele segundo, percebi que uma nova história estava prestes a começar — uma história que eu nunca pedi, mas que teria de viver até ao fim...

🩺 Episódio 49 – O Diagnóstico Que Não EsperavaEntramos no consultório do cirurgião. Ele recebe-nos com um ar calmo, mas ...
28/11/2025

🩺 Episódio 49 – O Diagnóstico Que Não Esperava

Entramos no consultório do cirurgião. Ele recebe-nos com um ar calmo, mas carregado de uma preocupação que não tenta disfarçar. Senta-se, olha para nós e diz, com voz séria:

— Não tenho boas notícias. O intestino tem uma obstrução que não conseguimos identif**ar ao certo, mas que está a impedir a passagem normal dos alimentos. Nestes casos, a solução é internamento por 24 horas para tentar reverter… e, se não resultar, teremos de avançar para cirurgia para remover a zona obstruída.

As palavras caem como uma bomba.
O que eu acreditava ser “apenas” mais uma crise — forte, sim, mas familiar — transforma-se num problema grave. Internamento. Cirurgia. E tudo isto a poucas semanas das minhas férias e da festa de Nossa Senhora das Dores 2024.

A minha cabeça entra em curto-circuito. O corpo volta a tremer. Até a dor parece despertar de novo.

E, perante este cenário, digo logo aquilo que o meu instinto sempre soube:
— Não vou f**ar internado no Hospital da Trofa. Se for preciso internamento ou cirurgia, é no São João.
É lá que tenho a minha médica, é lá que conhecem o meu Crohn, e é lá que existem tratamentos que um hospital privado não tem.

O médico não discute, não insiste. Apenas acena e diz para falar com quem preciso antes de decidir.

Tento ligar ao meu primo gastroenterologista. Não atende. A minha esposa segura-me na mão, aflita, repetindo:
— Calma… vai correr bem.

Insisto. Volto a ligar. Envio mensagem.
Até que finalmente consigo falar com ele. Explico tudo, e a resposta é imediata:
— Não fiques no Hospital da Trofa. Vai para o São João. Lá tratamos isso.
O meu maior receio desde que tenho a doença — ser internado no São João — tinha acabado de se tornar real.

O meu primo pede para falar diretamente com o cirurgião do Hospital da Trofa. Falam, alinham tudo:
— Dê-lhe alta, prepare a carta para o São João e envie todos os exames e análises da urgência.
O cirurgião compreende e faz exatamente isso.

Entretanto, o meu primo também avisa os colegas do São João, para que estivessem preparados para a minha chegada.
Eu, com os olhos cheios de lágrimas, percebo finalmente a gravidade da situação. Tento ser forte… mas na maior parte do tempo não consigo.

A minha esposa liga aos meus pais — precisam de me levar ao São João. Liga também à minha sogra, para preparar roupa para o internamento.
Quando os meus pais chegam, a apreensão vê-se no ar, pesa no peito. Apanho a minha esposa a chorar quando achava que eu não estava a ver.
E eu… eu já não consigo segurar as lágrimas.

Vamos até à receção pagar e recolher toda a documentação. A minha cabeça repete a mesma pergunta, sem parar:
Como é que isto aconteceu? O que está a obstruir o intestino?

E então lembro-me da refeição de sábado.
Aquele pedaço duro da carne… que engoli quase sem mastigar.
Não partilho essa hipótese com os meus pais e com a minha esposa, apenas o farei na viagem até ao São João, mas se fosse obrigado a apostar, seria nisso.

A curta viagem até casa faz-se em silêncio absoluto.
Quando chego, a minha sogra e as minhas filhas abrem a porta com lágrimas nos olhos. Mal consigo falar. Só consigo sentir.
E se precisar mesmo de ser operado? E se correr mal?
O medo é esmagador. O olhar das minhas princesas nunca mais irei esquecer e o medo deles ao ver o pai ir para outro hospital...

Troco de roupa para algo confortável, despeço-me delas entre lágrimas e tento dizer — mais para me convencer do que para as tranquilizar — que vou ser forte e em breve estarei de volta.

Entramos então no carro, eu, os meus pais e a minha esposa.
A realidade é avassaladora: tenho uma obstrução intestinal e vou ser internado no São João.

Durante a viagem, quase não falo. Rezamos.
O meu pai tenta, como sempre, aliviar a tensão:
— Vai correr tudo bem, filho. Vai correr bem.

É também no carro que revelo e explico a situação da carne mal mastigada — talvez a única causa plausível para tudo isto.

A mão da minha esposa entrelaçada na minha é a âncora que me impede de desmoronar.

Os 30 minutos até ao São João parecem, ao mesmo tempo, uma eternidade… e demasiado rápidos.
Eu só queria que fosse um pesadelo.
Mas não era.
Era a realidade que eu ia enfrentar dali em diante.

Chegamos ao São João, estacionamos e caminhamos para as urgências.
Mas isso… f**a para o próximo episódio...

Se acham que a minha história pode ajudar alguém, ou se querem acompanhar cada episódio assim que o publico, sigam a minha página. 🙏





🩺 Episódio 48 – A Nova HistóriaChego ao hospital e encontro duas pessoas a serem atendidas para admissão e pagamento. Es...
12/11/2025

🩺 Episódio 48 – A Nova História

Chego ao hospital e encontro duas pessoas a serem atendidas para admissão e pagamento. Este simples pormenor, que noutra altura seria irrelevante, torna-se agora uma eternidade. A dor, o cansaço e o medo transformam cada segundo em tormento.

A minha esposa, sempre atenta, pede-me que me sente e leve o s**o comigo, caso tenha de vomitar. É o que faço. Sento-me, mas a dor, a angústia e o stress são tão intensos que mal consigo respirar. Em apenas cinco minutos, a minha esposa consegue tratar de tudo na secretaria — mas para mim, pareceu uma hora.

Agora só resta esperar pela minha vez: primeiro a triagem com a enfermeira, depois o médico… e, talvez, algum alívio. Felizmente, a urgência do Hospital da Trofa estava quase vazia.

Pouco tempo depois — embora para mim o tempo parecesse distorcido pela dor — sou finalmente chamado pela enfermeira. Explico-lhe o que se passa: doente de Crohn, dores há mais de 24 horas, vómitos, cólicas e uma agonia que já se arrastava há demasiado tempo. Peço, quase em desespero, que me deem algo para aliviar o sofrimento. A enfermeira, profissional e calma, explica-me que só a médica pode prescrever medicação. Eu percebo — mas naquele momento, a espera é um suplício.

Voltamos à sala de espera. Poucos minutos depois, sou chamado pela médica. Explico novamente tudo, com voz fraca mas firme. A médica, apesar de jovem, mostra-se atenta e cuidadosa. Para além da medicação que imploro, decide também pedir um TAC abdominal — quer garantir que não há nada mais grave por trás daquela dor insuportável.

Agradeço e sigo, ainda curvado, até à zona dos cadeirões onde me vão aplicar a medicação antes do exame. Uma enfermeira aproxima-se e, ao ver a minha expressão, diz-me com empatia que vou f**ar melhor. Nunca desejei tanto que uma medicação fizesse efeito.

Começa a correr o soro, a medicação entra lentamente na veia, mas a dor insiste em permanecer. A minha esposa, sempre ao meu lado, segura-me na mão e diz-me para ter calma, para fechar os olhos, reclinar o cadeirão e esperar. E, como que por milagre, a dor começa a ceder. Sinto o corpo relaxar, o peito abrir-se, o ar voltar. Digo-lhe baixinho:
— Está a fazer efeito.
Ela sorri:
— A tua cara já é outra.

Depois de mais de 24 horas de sofrimento, a dor começa finalmente a abandonar-me.

Agora só falta o TAC, os resultados, e poder regressar a casa para descansar. Pelo menos, é o que penso.

A enfermeira aproxima-se e pergunta se já me sinto capaz de ir fazer o exame. Digo-lhe que sim e acompanho-a até à sala de espera dos TACs. Espero, mais tranquilo, até ser chamado. Quando entro, perguntam se já fiz o exame antes; respondo que sim e que não tenho alergias ao contraste.

O exame decorre normalmente. A meio, a enfermeira avisa-me de que será necessário administrar contraste. “Sem problema”, respondo. Só quero que tudo fique esclarecido, para poder ir embora em paz.

Terminado o exame, regressa o silêncio. A enfermeira diz-me que a médica falará comigo assim que o relatório estiver pronto. Volto para o cadeirão, junto da minha esposa, confiante de que tudo correu bem.

Passam 45 minutos. Depois uma hora. Nenhuma notícia. A ansiedade regressa, devagar, como uma maré que insiste em subir. Finalmente, a médica aparece. Senta-se e diz-me, com expressão séria, que detetaram algo no exame e que o colega de cirurgia virá falar comigo.

Fico em silêncio. A minha esposa também. Olhamos um para o outro, tentando disfarçar o medo. Não falamos logo — talvez para não dar força à possibilidade que ambos tememos. Mas ao fim de alguns minutos, quebramos o silêncio.
— Ela disse mesmo cirurgião, não disse?
— Disse…

Nesse instante, a calma que começava a nascer é substituída por uma angústia profunda. O que terá o exame mostrado para chamar um cirurgião?

Esperamos cerca de trinta minutos que parecem uma eternidade. Finalmente, o médico de cirurgia aparece e chama-me. Eu e a minha esposa seguimos para o consultório, de coração apertado, à espera da explicação que poderá mudar o rumo desta nova história...

Episódio 47 — A Noite Mais LongaSão 22h e fico sozinho na farmácia. Fecho as portas, preparo tudo para os atendimentos a...
02/11/2025

Episódio 47 — A Noite Mais Longa

São 22h e fico sozinho na farmácia. Fecho as portas, preparo tudo para os atendimentos ao postigo e, sem forças, vou direto ao gabinete onde temos uma cama. Deito-me e rezo — peço a Deus e aos meus familiares que já partiram que me deem coragem para aguentar a noite da melhor forma possível. Peço também que, se puder ser, a noite traga o mínimo de clientes.
Tomo mais um medicamento para os vómitos — desta vez uma metoclopramida — e junto-lhe um alprazolam de 0,5 mg. Ainda não posso tomar nada para as dores, o que me desespera, porque elas não me largam. A dor, o mal-estar e os vómitos são uma tortura constante. Encolho-me em posição fetal, tentando encontrar algum alívio naquela postura dobrada. Deitado, até parece que a dor abranda… por instantes.
São 22h30 quando a campainha toca pela primeira vez. Encho-me de coragem e arrasto-me até ao balcão. Tento compor o rosto, fingir alguma normalidade, mas o corpo denuncia o contrário. Aquilo que parecia suportável deitado transforma-se em agonia em pé. Atendo o cliente ligeiramente curvado, tentando que não perceba o meu sofrimento. São apenas dois minutos… mas parecem uma eternidade.
Assim que termina o atendimento, corro à casa de banho. Sento-me em frente à sanita, dominado pela vontade de vomitar. A cabeça lateja, e uma música qualquer — não sei de onde — repete-se na minha mente em loop, como uma tortura. Fecho os olhos, inspiro fundo, e com esforço levanto-me para regressar à cama. A noite, felizmente, está calma. E isso, hoje, é uma bênção.
Adormeço por breves instantes, mas o toque da campainha volta a acordar-me. Novo atendimento. Nova luta. As dores aumentam, os vómitos regressam. Cada atendimento é um teste à minha resistência. Falta ainda uma eternidade até às 8h30.
De volta à cama, já posso tomar nova dose de Buscopan N. Faço isso com a esperança infantil de que agora, sim, as coisas vão melhorar. Junto-lhe mais um ondansetrom de 8 mg e volto a deitar-me. Rezo novamente — peço força, peço alívio, peço simplesmente que a dor pare.
A noite continua silenciosa. Ninguém aparece. Parecia que até os clientes e os doentes sabiam que, naquela madrugada, o farmacêutico estava pior do que eles.
Mas mesmo deitado, medicado e exausto, tudo continua a piorar. Por volta das 3h30, corro novamente à casa de banho. Vomito com força. O que me assusta é ver pedaços de algo com a cor da sopa que comi ao almoço. Horas depois… como é possível? A preocupação invade-me. O que se estará a passar? Tento afastar o pensamento e volto à cama. Após vomitar, sinto um pequeno alívio, o suficiente para adormecer de novo.
Às 7h30, o descanso termina. Três clientes seguidos entram e cada atendimento é um suplício. Vómitos entre um e outro, dores intensas, um sofrimento que parece não ter fim. Conto os minutos até às 8h30.
Finalmente, às 8h20, o meu colega chega. Mal consigo falar. Curvado, apenas digo que tenho de me ir embora, que avise o outro colega — não aguento mais.
Conduzo até casa curvado, o corpo em espasmos. Ao ver-me entrar, a minha sogra f**a aflita. Dispenso comida, palavras ou gestos — só quero deitar-me. A dor já dura há mais de 24 horas, sem trégua.
No quarto, a minha esposa prepara-se para sair para o trabalho. Mas quando me vê naquela condição — curvado, pálido, agoniado, quase a chorar de dor — apenas diz:
“Vamos ao hospital.”
Não hesito. Sei que é isso que tem de ser feito. Ela ajuda-me a vestir umas calças, uma t-shirt, a trocar as meias e os sapatos. Eu já nem isso consigo fazer sozinho.
Tremo de dor. A preocupação toma conta de nós. Saímos de casa à pressa — ela nem pequeno-almoço toma. A curta viagem até ao Hospital da Trofa parece uma eternidade. Levo um s**o nas mãos, preparado para o inevitável.
Chegamos ao hospital.
E uma nova história está prestes a começar…
Mas essa, conto-te no próximo episódio...

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