Virgílio Baltasar_Psicólogo Clínico

Virgílio Baltasar_Psicólogo Clínico Psicologia Clínica; Neuropsicologia; a partir dos 10 anos. CP OPP: 018579.

Métodos de intervenção psicológica: Psicoterapia Integrativa; Psicoterapia Assistida por Neurofeedback Clínico; Fotobiomodulação
Grupo HPA de VRSA: 281530160

➡️Quando o “eu” e o mundo deixam de parecer reais: compreender a despersonalização e a desrealizaçãoA dissociação é um f...
19/02/2026

➡️Quando o “eu” e o mundo deixam de parecer reais: compreender a despersonalização e a desrealização

A dissociação é um fenómeno psicológico amplo, que inclui diferentes formas de alteração da experiência consciente. Pode manifestar-se como amnésia dissociativa, fragmentação interna, estados dissociativos mais complexos ou, de forma mais frequente, como despersonalização e desrealização. Neste texto focamo-nos apenas nestas duas últimas, que representam manifestações comuns da dissociação em pessoas expostas a stress extremo ou experiências traumáticas (Steele et al., 2017).

De forma geral, a dissociação pode ser compreendida como uma perturbação da integração da experiência. Steele, Boon e Van der Hart (2017) descrevem-na como um problema de não-realização: a pessoa deixa de conseguir sentir plenamente que algo é real, que lhe pertence ou que está a acontecer no presente. Emoções, sensações corporais, pensamentos e memórias deixam de funcionar como um todo coerente, passando a existir de forma parcial ou desconectada.

Este processo não é voluntário nem consciente. Trata-se de uma resposta automática de sobrevivência perante experiências vividas como excessivamente ameaçadoras (Steele et al., 2017).

✔️Despersonalização: afastamento da própria experiência de si

Na despersonalização, o afastamento ocorre em relação ao próprio self. A pessoa pode sentir-se desligada do corpo, da voz ou das emoções, como se estivesse a observar-se de fora ou a funcionar de forma automática. São comuns vivências de vazio emocional, anestesia afetiva e perda da sensação de identidade viva e presente (Steele et al., 2017).

Apesar do sofrimento associado, a pessoa mantém contacto com a realidade externa. Não existe perda do juízo de realidade. O que está alterado é a experiência subjetiva do eu, que deixa de ser sentida como integrada ou plenamente presente.

Do ponto de vista psicodinâmico, estas experiências refletem dificuldades precoces na organização do self, resultantes de contextos relacionais em que emoções intensas não puderam ser simbolizadas nem integradas. Gabbard (2014) descreve como falhas no desenvolvimento das estruturas internas podem levar à utilização de defesas profundas, incluindo fenómenos dissociativos, para manter algum equilíbrio psicológico.

✔️Desrealização: afastamento da realidade externa

Na desrealização, o afastamento dirige-se ao mundo exterior. O ambiente pode parecer artificial, distante ou onírico; as pessoas podem ser vividas como irreais; e o mundo perde a sua qualidade de presença. Tal como na despersonalização, a pessoa reconhece intelectualmente que a realidade é real, mas já não a sente dessa forma (Steele et al., 2017).

Estas experiências representam alterações da vivência da realidade, não perturbações psicóticas. A consciência da realidade mantém-se preservada, ainda que a experiência emocional da mesma esteja profundamente modificada.

✔️Origem destas experiências

Segundo Steele et al. (2017), a dissociação desenvolve-se sobretudo em contextos de ameaça intensa, particularmente quando o trauma ocorre precocemente, envolve figuras de vinculação, é repetido ou prolongado, e não existe proteção externa suficiente. Nestas circunstâncias, a experiência torna-se impossível de integrar no momento em que acontece.

O psiquismo passa então a organizar-se em diferentes estados funcionais: alguns orientados para a vida quotidiana, outros fixados em experiências traumáticas ou em sistemas defensivos associados ao perigo. Esta organização dissociativa permite à pessoa sobreviver psicologicamente a realidades incompatíveis, como depender emocionalmente de alguém que simultaneamente é fonte de ameaça (Steele et al., 2017).

Gabbard (2014) acrescenta que, quando experiências emocionais intensas não conseguem ser simbolizadas no desenvolvimento, surgem fragmentações internas e défices estruturais do self. Estas fragilidades favorecem o recurso a mecanismos dissociativos como forma de lidar com afetos intoleráveis e conflitos internos profundos.

Assim, a dissociação não resulta de fraqueza pessoal, mas de uma necessidade adaptativa perante experiências que excederam a capacidade integrativa do organismo.

✔️O papel do corpo e do sistema nervoso

A dissociação envolve necessariamente o corpo e o sistema nervoso. Steele et al. (2017) descrevem como experiências traumáticas ativam intensamente os sistemas defensivos, levando a respostas de luta, fuga ou congelamento. Quando estas respostas não podem ser completadas ou quando a ameaça é contínua, o organismo pode recorrer ao desligamento como estratégia de proteção.

Por isso, muitas pessoas relatam saber racionalmente que estão seguras, mas não conseguem sentir essa segurança. A despersonalização associa-se frequentemente a estados de entorpecimento e desligamento corporal, enquanto a desrealização pode surgir após períodos de elevada ativação emocional, funcionando como tentativa automática de reduzir a sobrecarga do sistema nervoso (Steele et al., 2017).

A memória traumática não é apenas narrativa. O corpo mantém padrões de tensão, colapso ou alerta, mesmo quando a pessoa não possui recordações claras dos acontecimentos. Estes padrões refletem experiências que não puderam ser integradas no momento em que ocorreram (Steele et al., 2017; Gabbard, 2014).

✔️Conclusão

A dissociação é um fenómeno amplo, com múltiplas manifestações. Neste texto abordámos apenas despersonalização e desrealização, duas formas frequentes desta resposta adaptativa.

Ambas representam estratégias automáticas de sobrevivência perante ameaça extrema. Não implicam perda de contacto com a realidade. Resultam da interação entre sistema nervoso, corpo e história relacional, emergindo quando experiências emocionais não puderam ser integradas no desenvolvimento do self (Steele et al., 2017; Gabbard, 2014).

A dissociação constitui uma adaptação profunda do organismo a experiências excessivamente difíceis. À medida que se cria segurança relacional e se promove integração progressiva da experiência, estes estados podem transformar-se, permitindo uma recuperação gradual da presença, do sentido de identidade e da vivência de realidade.

Referências

Gabbard, G. O. (2014). Psychodynamic psychiatry in clinical practice (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing.

Steele, K., Boon, S., & Van der Hart, O. (2017). Treating trauma-related dissociation: A practical, integrative approach. New York, NY: W. W. Norton & Company.

PÂNICO
19/02/2026

PÂNICO

O LUTO: DO NORMAL AO COMPLEXO
17/02/2026

O LUTO: DO NORMAL AO COMPLEXO

Psicose, Trauma e Dissociação: Uma Perspetiva Integrada com Psicoterapia Assistida por Neurofeedback Clínico➡️O que é a ...
14/02/2026

Psicose, Trauma e Dissociação: Uma Perspetiva Integrada com Psicoterapia Assistida por Neurofeedback Clínico

➡️O que é a psicose?

A psicose refere-se a experiências profundas de alteração da perceção da realidade, incluindo alucinações, delírios, desorganização do pensamento e perturbações do sentido de identidade e continuidade do self (Krueger & Blaney, 2023). Atualmente, é amplamente reconhecido que a psicose não constitui uma entidade única e isolada, mas antes um conjunto de fenómenos que emergem a partir de múltiplas vias de desenvolvimento psicológico e neurobiológico, frequentemente organizadas em contínuos dimensionais da psicopatologia (Krueger & Blaney, 2023).

Do ponto de vista psicodinâmico, a psicose pode ser compreendida como uma falha profunda da integração psíquica, na qual conteúdos internos não simbolizados invadem a perceção da realidade externa, comprometendo a distinção entre mundo interno e mundo externo (Gabbard, 2014). Estes fenómenos não surgem de forma arbitrária, mas refletem tentativas do aparelho psíquico de lidar com estados internos esmagadores e não integrados (Gabbard, 2014).

➡️Relação entre psicose, trauma psicológico e dissociação

A investigação contemporânea tem demonstrado uma associação consistente entre trauma psicológico - particularmente trauma relacional precoce e crónico - e o desenvolvimento de sintomas psicóticos (Moskowitz et al., 2019). Experiências repetidas de ameaça, abandono ou abuso podem comprometer o desenvolvimento integrado do self, levando à fragmentação da experiência subjetiva.

A dissociação surge como uma resposta adaptativa do sistema nervoso e da mente face a experiências que excedem a capacidade de processamento do indivíduo (Steele et al., 2011). Quando estas estratégias dissociativas se tornam estruturais, podem manifestar-se sob a forma de alterações da consciência, da memória, da identidade e da perceção - fenómenos que, em muitos casos, são clinicamente descritos como psicóticos (Moskowitz et al., 2019).

Assim, numa perspetiva psicotraumatológica, muitos quadros psicóticos podem ser compreendidos como expressões extremas de dissociação traumática, em que memórias implícitas, estados emocionais não integrados e partes dissociadas da personalidade emergem sob a forma da escuta de vozes, alucinações, experiências persecutórias ou fragmentação do self (Moskowitz et al., 2019).

➡️Neurofeedback Clínico como Intervenção Psicotraumatológica

Quando a psicose é conceptualizada como expressão de trauma psicológico e dissociação, o foco terapêutico desloca-se da “eliminação de sintomas” para a regulação do sistema nervoso, a integração da experiência traumática e a reconstrução da coesão do self. É neste enquadramento que a Psicoterapia asssistida por neurofeedback clínico assume relevância.

O neurofeedback clínico tem demonstrado eficácia no tratamento do trauma psicológico, da desregulação autonómica e da dissociação - processos centrais na psicose de base traumática (van der Kolk et al., 2016; Nicholson et al., 2020).

Fase 1 – Estabilização: Regulação do Sistema Nervoso

A primeira fase do tratamento visa promover segurança interna, reduzir hiperativação e aumentar a capacidade de autorregulação (Steele et al., 2011). O trauma está associado a hiperativação límbica, comprometimento da regulação pré-frontal e instabilidade autonómica crónica (Lanius et al., 2010).

Estudos demonstram que o neurofeedback pode reduzir significativamente sintomas de trauma, melhorar a regulação emocional e diminuir estados dissociativos (van der Kolk et al., 2016). Protocolos que atuam sobre ritmos lentos e muito lentos têm sido associados à estabilização tónica do sistema nervoso central e à modulação de redes cerebrais de larga escala envolvidas na vigilância, saliência e autorregulação (Othmer et al., 2013; Nicholson et al., 2020).

Nesta fase, o neurofeedback contribui para diminuir intrusões traumáticas, reduzir desorganização interna e criar as condições neurofisiológicas necessárias para trabalho traumático posterior.

Fase 2 – Processamento do Trauma: Alfa-Teta e Integração Implícita

Após estabilização suficiente, o tratamento pode avançar para o processamento gradual das memórias traumáticas dissociadas (Steele et al., 2011). O protocolo alfa-teta tem uma longa tradição no tratamento do trauma psicológico e está associado à facilitação de estados hipnagógicos que permitem o acesso seguro a material implícito traumático (Pen*ston & Kulkosky, 1991).

A literatura indica que o treino alfa-teta promove integração emocional, redução de defesas rígidas e reorganização funcional de circuitos associados à memória e à emoção (Gruzelier, 2009). Em estados psicóticos de base traumática, muitos conteúdos alucinatórios ou delirantes podem ser compreendidos como manifestações simbólicas de memórias traumáticas não integradas. Ao facilitar o processamento dessas memórias, o alfa-teta contribui para a diminuição progressiva da necessidade de expressão dissociativa sob a forma de sintomas psicóticos.

Fase 3 – Integração: Coesão do Self e Continuidade Identitária

A fase final do tratamento visa a integração das partes dissociadas da personalidade, promovendo continuidade autobiográfica, coesão identitária e maior flexibilidade psicológica (Steele et al., 2011).

Estudos de neuroimagem demonstram que o trauma crónico está associado a alterações da Default Mode Network, da rede de saliência e da conectividade entre sistemas emocionais e cognitivos (Lanius et al., 2010). O neurofeedback tem sido associado à normalização da conectividade funcional destas redes, favorecendo maior integração neurofuncional e subjetiva (Nicholson et al., 2020; Gruzelier, 2009).

Nesta fase, o neurofeedback apoia a consolidação dos ganhos terapêuticos, reduz a fragmentação interna residual e fortalece a experiência de um self mais integrado e contínuo.

➡️Conclusão

Quando a psicose é conceptualizada a partir da psicotraumatologia, o seu tratamento passa necessariamente pela regulação do sistema nervoso, pelo processamento das experiências traumáticas e pela integração do self. O neurofeedback clínico, ao atuar diretamente sobre os mecanismos neurofisiológicos do trauma e da dissociação, constitui uma ferramenta coerente e fundamentada neste modelo, apoiando cada uma das fases do processo terapêutico.

Referências

Gabbard, G. O. (2014). Psychodynamic psychiatry in clinical practice (5th ed.). American Psychiatric Publishing.

Gruzelier, J. H. (2009). A theory of alpha/theta neurofeedback, creative performance enhancement, long distance functional connectivity and psychological integration. Cognitive Processing, 10(Suppl. 1), S101–S109.

Krueger, R. F., & Blaney, P. H. (Eds.). (2023). Oxford textbook of psychopathology (4th ed.). Oxford University Press.

Lanius, R. A., Bluhm, R. L., & Frewen, P. A. (2010). How understanding the neurobiology of PTSD can inform treatment. Clinical Psychology: Science and Practice, 18(1), 1–13.

Nicholson, A. A., et al. (2020). Neurofeedback treatment of PTSD: Changes in resting-state connectivity. NeuroImage: Clinical, 28, 102430.

Othmer, S., Othmer, S., & Kaiser, D. (2013). EEG biofeedback: An emerging model for its global efficacy. Biofeedback, 41(3), 149–155.

Pen*ston, E. G., & Kulkosky, P. J. (1991). Alpha-theta brainwave training and PTSD in Vietnam veterans. Medical Psychotherapy, 4, 47–60.

Steele, K., Boon, S., & van der Hart, O. (2011). Treating trauma-related dissociation: A practical, integrative approach. W. W. Norton.

Van der Kolk, B. A., et al. (2016). A randomized controlled study of neurofeedback for chronic PTSD. PLoS ONE, 11(12), e0166752.

07/02/2026

Toda a aprendizagem começa na vinculação: primeiro aprendemos a amar - só depois podemos amar a aprendizagem. Primeiro a vinculaçao, o amor, e só depois o método e a técnica.

Excerto do filme “ Maria Montessori”

Muito obrigado ♥️
04/02/2026

Muito obrigado ♥️

➡️ Neurofeedback InfraSlow LORETAO Neurofeedback InfraSlow com mapeamento cerebral LORETA, é  uma abordagem avançada, pr...
01/02/2026

➡️ Neurofeedback InfraSlow LORETA

O Neurofeedback InfraSlow com mapeamento cerebral LORETA, é uma abordagem avançada, precisa e profunda no campo do Neurofeedback Clínico.

Essa tecnologia combina dois grandes avanços:
• InfraSlow/ Infralow Neurofeedback: trabalha com as frequências cerebrais mais lentas (abaixo de 0.5 Hz), essenciais para a regulação emocional e cognitiva;
• LORETA (Low Resolution Brain Electromagnetic Tomography): permite mapear em tempo real as regiões do cérebro que estão desreguladas, possibilitando um tratamento mais localizado e eficaz; por essa razão envolve a colocação de pelo menos 19 eléctrodos.

✔️Para que serve?
O Neurofeedback InfraSlow LORETA é útil em duas situações:
1. Casos resistentes, onde o neurofeedback tradicional ou o InfraSlow/ Infralow bipolar não tiveram o efeito esperado.
2. Quando queremos aprofundar o trabalho clínico, mesmo após bons resultados com outros tipos de neurofeedback. Ele permite avançar para níveis mais profundos de tratamento cerebral, oferecendo maior especificidade e alcance terapêutico.

Ou seja, não é apenas uma alternativa quando os outros não funcionam. É também um passo seguinte natural, em situações em que é necessário consolidar e ampliar os ganhos já alcançados com outras tipologias de neurofeedback clínico.

✔️O que ele oferece de diferente?
• Protocolos de tratamento mais individualizados
• Maior precisão ao identificar regiões cerebrais envolvidas nos sintomas
• Maior potencial de mudança em níveis mais profundos de autorregulação cerebral

É um avanço tecnológico que se traduz em mais possibilidades clínicas, tanto para quem precisa de uma nova abordagem quanto para quem quer e precisa ir mais além.

1. Adhia, D. B., Mani, R., Turner, P. R., Vanneste, S., & De Ridder, D. (2022). Infraslow neurofeedback training alters effective connectivity in individuals with chronic low back pain: A secondary analysis of a pilot randomized placebo-controlled study. Brain Sciences, 12(11), 1514. https://doi.org/10.3390/brainsci12111514

2. Mathew, J., Adhia, D. B., Smith, M. L., De Ridder, D., & Mani, R. (2022). Source localized infraslow neurofeedback training in people with chronic painful knee osteoarthritis: A randomized, double-blind, sham-controlled feasibility clinical trial. Frontiers in Neuroscience, 16, 899772. https://doi.org/10.3389/fnins.2022.899772

3. Perez, T. M., Mathew, J., Adhia, D., & De Ridder, D. (2021). Infraslow neurofeedback update. NeuroRegulation, 8(4), 198–219. https://doi.org/10.15540/nr.8.4.198

4. Cannon, R. L. (2012). LORETA neurofeedback: Odd reports, observations, and findings associated with spatial specific neurofeedback training. Journal of Neurotherapy, 16(2), 164–167. https://doi.org/10.1080/10874208.2012.677611

5. Congedo, M., Lubar, J. F., & Joffe, D. (2004). Low-resolution electromagnetic tomography neurofeedback. IEEE Transactions on Neural Systems and Rehabilitation Engineering, 12(4), 387–397. https://doi.org/10.1109/TNSRE.2004.837823

O que é o Síndrome de Resignação e o que ele nos ensina sobre o trauma psicológico ✔️O que é o Síndrome de Resignação?O ...
30/01/2026

O que é o Síndrome de Resignação e o que ele nos ensina sobre o trauma psicológico

✔️O que é o Síndrome de Resignação?

O Síndrome de Resignação é um estado raro e grave descrito sobretudo em crianças e adolescentes refugiados, expostos a experiências traumáticas intensas e prolongadas, como guerra, perseguição e ameaça constante ao futuro. Nestes casos, a criança pode deixar progressivamente de falar, de comer, de se mover e de responder ao ambiente, entrando num estado de inresponsividade profunda, semelhante a um coma, que pode durar meses ou até anos (Carpenter et al., 2020).

✔️Isto não é uma escolha psicológica

De acordo com a literatura, este estado não é voluntário, nem simulado, nem explicável por uma doença neurológica clássica. Surge num contexto de stresse extremo, sensação de impotência e perda de esperança, quando a criança vive uma discrepância contínua entre aquilo que precisa para se sentir segura e aquilo que a realidade lhe oferece (Carpenter et al., 2020). Trata-se, portanto, de uma resposta extrema do organismo quando todas as outras formas de adaptação falharam.

✔️Pode acontecer fora de contextos de guerra?

Embora o Síndrome de Resignação, enquanto entidade clínica específica, tenha sido descrito principalmente em contextos de migração forçada e ameaça de deportação, estados muito semelhantes de “apagamento psicológico” podem ocorrer fora da guerra. Na Psicopatologia, estes quadros são descritos como coma funcional ou estupor dissociativo, caracterizados por uma inresponsividade profunda sem lesão cerebral estrutural.

Isto significa que o fenómeno central - o corpo desligar quando a experiência é vivida como insuportável e inescapável - não é exclusivo da guerra, ainda que assuma formas particularmente graves nesses contextos (Carpenter et al., 2020).

✔️O que a Teoria Polivagal nos ajuda a compreender

A Teoria Polivagal explica que o sistema nervoso autónomo organiza o nosso comportamento de acordo com a perceção de segurança ou ameaça. Quando existe segurança, conseguimos estar ligados, presentes e responsivos. Quando há perigo, o corpo entra em alerta. Mas quando o perigo é vivido como inescapável e prolongado, o organismo pode ativar um estado profundo de imobilização e desligamento, mediado pelo nervo vagal dorsal (Porges, 2011).

Neste estado:
• a energia do corpo diminui drasticamente,
• o contacto com o mundo exterior é reduzido,
• a dor e as emoções podem ficar anestesiadas.

À luz desta teoria, o Síndrome de Resignação - e estados semelhantes fora da guerra - podem ser compreendidos como a última estratégia biológica de sobrevivência, e não como desistência, fraqueza ou falha psicológica (Porges, 2011).

▶️O Síndrome de Resignação mostra até onde o cérebro e o corpo humanos conseguem ir para lidar com o trauma. Quando não é possível lutar, fugir ou pedir ajuda, o corpo pode sobreviver desligando (Carpenter et al., 2020; Porges, 2011).

Mostra também algo importante e esperançoso: quando a ameaça desaparece e a segurança é real, previsível e sustentada, o sistema nervoso pode lentamente reaprender a voltar ao contacto com a vida (Carpenter et al., 2020).

Referências

Carpenter, D. O., Kapatos, G., & Papadopoulos, K. (2020). Resignation syndrome: A stress response of children in the face of trauma and uncertainty. Biomedical Journal of Scientific & Technical Research, 30(3), 23547–23551.

Porges, S. W. (2011). The polyvagal theory: Neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. New York, NY: W. W. Norton & Company.

30/01/2026

Endereço

Vila Real De Santo António
8900-211

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