30/01/2026
O que é o Síndrome de Resignação e o que ele nos ensina sobre o trauma psicológico
✔️O que é o Síndrome de Resignação?
O Síndrome de Resignação é um estado raro e grave descrito sobretudo em crianças e adolescentes refugiados, expostos a experiências traumáticas intensas e prolongadas, como guerra, perseguição e ameaça constante ao futuro. Nestes casos, a criança pode deixar progressivamente de falar, de comer, de se mover e de responder ao ambiente, entrando num estado de inresponsividade profunda, semelhante a um coma, que pode durar meses ou até anos (Carpenter et al., 2020).
✔️Isto não é uma escolha psicológica
De acordo com a literatura, este estado não é voluntário, nem simulado, nem explicável por uma doença neurológica clássica. Surge num contexto de stresse extremo, sensação de impotência e perda de esperança, quando a criança vive uma discrepância contínua entre aquilo que precisa para se sentir segura e aquilo que a realidade lhe oferece (Carpenter et al., 2020). Trata-se, portanto, de uma resposta extrema do organismo quando todas as outras formas de adaptação falharam.
✔️Pode acontecer fora de contextos de guerra?
Embora o Síndrome de Resignação, enquanto entidade clínica específica, tenha sido descrito principalmente em contextos de migração forçada e ameaça de deportação, estados muito semelhantes de “apagamento psicológico” podem ocorrer fora da guerra. Na Psicopatologia, estes quadros são descritos como coma funcional ou estupor dissociativo, caracterizados por uma inresponsividade profunda sem lesão cerebral estrutural.
Isto significa que o fenómeno central - o corpo desligar quando a experiência é vivida como insuportável e inescapável - não é exclusivo da guerra, ainda que assuma formas particularmente graves nesses contextos (Carpenter et al., 2020).
✔️O que a Teoria Polivagal nos ajuda a compreender
A Teoria Polivagal explica que o sistema nervoso autónomo organiza o nosso comportamento de acordo com a perceção de segurança ou ameaça. Quando existe segurança, conseguimos estar ligados, presentes e responsivos. Quando há perigo, o corpo entra em alerta. Mas quando o perigo é vivido como inescapável e prolongado, o organismo pode ativar um estado profundo de imobilização e desligamento, mediado pelo nervo vagal dorsal (Porges, 2011).
Neste estado:
• a energia do corpo diminui drasticamente,
• o contacto com o mundo exterior é reduzido,
• a dor e as emoções podem ficar anestesiadas.
À luz desta teoria, o Síndrome de Resignação - e estados semelhantes fora da guerra - podem ser compreendidos como a última estratégia biológica de sobrevivência, e não como desistência, fraqueza ou falha psicológica (Porges, 2011).
▶️O Síndrome de Resignação mostra até onde o cérebro e o corpo humanos conseguem ir para lidar com o trauma. Quando não é possível lutar, fugir ou pedir ajuda, o corpo pode sobreviver desligando (Carpenter et al., 2020; Porges, 2011).
Mostra também algo importante e esperançoso: quando a ameaça desaparece e a segurança é real, previsível e sustentada, o sistema nervoso pode lentamente reaprender a voltar ao contacto com a vida (Carpenter et al., 2020).
Referências
Carpenter, D. O., Kapatos, G., & Papadopoulos, K. (2020). Resignation syndrome: A stress response of children in the face of trauma and uncertainty. Biomedical Journal of Scientific & Technical Research, 30(3), 23547–23551.
Porges, S. W. (2011). The polyvagal theory: Neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. New York, NY: W. W. Norton & Company.