Virgílio Baltasar_Psicólogo Clínico

Virgílio Baltasar_Psicólogo Clínico Psicologia Clínica; Neuropsicologia; a partir dos 10 anos. CP OPP: 018579.

Métodos de intervenção psicológica: Psicoterapia EMDR e Integrativa; Psicoterapia Assistida por Neurofeedback Clínico; Fotobiomodulação
Grupo HPA de VRSA: 281530160

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30/04/2026

Muito obrigado ♥️

TRAUMA COMPLEXOO trauma complexo refere-se à exposição continuada, repetida e cumulativa a experiências de abuso, neglig...
26/04/2026

TRAUMA COMPLEXO

O trauma complexo refere-se à exposição continuada, repetida e cumulativa a experiências de abuso, negligência, violência, perturbações graves nas relações de vinculação ou ausência persistente de proteção e segurança, sobretudo quando ocorrem durante a infância ou adolescência, períodos críticos do desenvolvimento neurobiológico, emocional e psicológico(Gómez & Hosey, 2025; Cruz et al., 2022). Ao contrário de um evento traumático isolado, o trauma complexo afeta profundamente o desenvolvimento global da pessoa, interferindo com a regulação emocional, o sistema nervoso, o corpo, a identidade, a autoestima, a perceção de segurança e a capacidade de estabelecer relações saudáveis (Pasteuning et al., 2025). Em vez de deixar apenas memórias dolorosas, pode moldar a própria forma como a pessoa sente, pensa, reage e se relaciona consigo e com os outros, podendo manifestar-se ao longo da vida através de ansiedade, dissociação, hipervigilância, colapso, somatização, dificuldades emocionais e sofrimento psicológico persistente.

❤️Neste contexto, o neurofeedback clínico tem sido descrito na literatura como uma intervenção relevante e indicada na abordagem ao trauma complexo, particularmente ao promover autorregulação neurofisiológica, estabilização funcional e melhoria da integração emocional e autonómica (Panisch & Hai, 2020).

Referências:

Cruz, D., Spinazzola, J., van der Kolk, B., Perrotta, P., & Ford, J. D. (2022). Developmental trauma: Conceptual framework, associated risks and comorbidities, and evaluation and treatment. Frontiers in Psychiatry, 13, 800687. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2022.800687

Gómez, A. M., & Hosey, J. (Eds.). (2025). The handbook of complex trauma and dissociation in children: Theory, research, and clinical applications. Routledge.

Pasteuning, J. M., Groot, A., van der Feltz-Cornelis, C. M., & de Kloet, E. R. (2025). Mechanisms of childhood trauma: An integrative review of neurobiological, psychosocial, and behavioral pathways across mental and somatic disorders. Current Opinion in Psychology, 58, 101866.

Panisch, L. S., & Hai, A. H. (2020). The effectiveness of neurofeedback interventions for complex trauma and dissociative symptoms: A systematic review. Trauma, Violence, & Abuse, 21(4), 732–750.

12/04/2026

O caminho que nos perde é, por vezes, aquele que nos leva para casa

Virgílio Baltasar

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10/04/2026

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✔️Como o Trauma Psicológico Afeta o Corpo: Da Energia Celular à DoençaO trauma psicológico deixa marcas profundas no cor...
09/04/2026

✔️Como o Trauma Psicológico Afeta o Corpo: Da Energia Celular à Doença

O trauma psicológico deixa marcas profundas no corpo. Hoje sabemos que experiências difíceis, especialmente na infância, podem alterar o funcionamento de vários sistemas biológicos, incluindo o sistema nervoso, o sistema imunitário e o metabolismo (Straub, 2023).

Quando uma pessoa vive uma situação de ameaça intensa (como abuso, negligência ou stresse prolongado), o organismo entra num modo de “sobrevivência”. Esse estado não é apenas psicológico: envolve alterações reais nas células. Um dos mecanismos centrais é a chamada resposta de perigo celular (cell danger response), um programa biológico ativado quando as células percebem ameaça (Naviaux, 2019b).

As mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia nas células, desempenham aqui um papel fundamental. Funcionam como sensores de perigo: quando detetam stresse psicológico, o metabolismo celular altera-se, a produção de energia torna-se menos eficiente e são ativados sinais inflamatórios (Naviaux, 2014). Este processo é adaptativo a curto prazo, pois ajuda o organismo a defender-se.

O problema surge quando esse estado não “desliga”. Se o organismo permanece preso neste modo de defesa, a resposta de perigo torna-se crónica. Isso pode levar a alterações fisiológicas importantes, como inflamação persistente, disfunção metabólica e perturbações na comunicação entre células e sistemas do corpo (Naviaux, 2019a).

Ao longo do tempo, estas alterações aumentam o risco de diversas doenças. A investigação mostra que o trauma precoce está associado a maior probabilidade de desenvolver doenças inflamatórias, autoimunes, cardiovasculares, entre muitas outras, bem como perturbações mentais (Straub, 2023). Isto ocorre porque o cérebro e o corpo ficam “programados” para um estado de alerta contínuo, influenciando tanto a regulação emocional como a fisiologia global.

O trauma psicológico pode ser compreendido não apenas como uma experiência emocional, mas como um fator que altera profundamente a biologia do organismo, especialmente ao nível energético (mitocondrial) e inflamatório, contribuindo para o desenvolvimento de doença ao longo da vida.

Bibliografia

Naviaux, R. K. (2014). Metabolic features of the cell danger response. Mitochondrion, 16, 7–17. https://doi.org/10.1016/j.mito.2013.08.006

Naviaux, R. K. (2019a). Metabolic features and regulation of the healing cycle-A new model for chronic disease pathogenesis and treatment. Mitochondrion, 46, 278–297. https://doi.org/10.1016/j.mito.2018.08.001

Naviaux, R. K. (2019b). Cell danger response biology-The new science that connects environmental health with mitochondria and the rising tide of chronic illness. Mitochondrion, 51, 40–45. https://doi.org/10.1016/j.mito.2019.12.005

Straub, R. H. (2023). Early trauma as the origin of chronic inflammation: A psychoneuroimmunological perspective. Springer. https://doi.org/10.1007/978-3-662-66751-4

Todos nós precisamos de existir no pensamento de alguém.Somos concebidos, crescemos, vivemos e morremos. Os propósitos d...
11/03/2026

Todos nós precisamos de existir no pensamento de alguém.

Somos concebidos, crescemos, vivemos e morremos. Os propósitos da existência humana podem ser muito diversificados e complexos. Contudo, todos desejamos o mesmo desde que nos sabemos pessoas deste mundo. Todos desejamos, lutamos e até adoecemos para existir no pensamento de alguém. Dos nossos pais, filhos, irmãos, amigos, professores, namorado(a)s...todos aqueles importantes que se cruzam com a nossa história. Todos queremos ocupar esse lugar na vida de dentro de alguém e sentir que estamos entrelaçados e protegidos da solidão, do esquecimento, da inexistência, da anulação da nossa pessoa. É como se de alguma forma a nossa existência, o ser-se pessoa, dependesse do olhar e do pensamento de outrem.

Atrevo-me mesmo a dizer, que mesmo antes de existirmos fisicamente, este desejo e necessidade humana igualmente se concretiza; veja-se quantas vezes os nossos pais ou outros fantasiaram e sonharam connosco ainda sequer de sermos concebidos, dando-nos a possibilidade de existirmos nas suas vidas, nos seus corações?! E quantas pessoas, conhecidas ou não, nos transportam no seu pensamento sem nós suspeitarmos, em segredo?

É este o nosso propósito. Nascemos para amar e desamar, mas nem mesmo no desamor deixamos de viver dentro das pessoas. Aliás, por vezes e paradoxalmente, quando tentamos romper vínculos, quando experimentamos ódio e repúdio em relação a uma pessoa, é quando essa pessoa se torna mais presente na nossa vida de dentro.
Enfim, nem a morte nos tira as pessoas; elas permanecem no nosso pensamento, naquele lugar que existe dentro de todos nós e só cada um de nós (des)conhece.

Virgílio Baltasar

✔️A Possessão Demoníaca à luz da Ciência- A Possessão Demoníaca:Ao longo da história, muitas culturas relataram situaçõe...
08/03/2026

✔️A Possessão Demoníaca à luz da Ciência

- A Possessão Demoníaca:

Ao longo da história, muitas culturas relataram situações em que uma pessoa parece perder o controlo sobre si mesma e passa a agir como se estivesse dominada por uma entidade externa, fenómeno tradicionalmente descrito como possessão demoníaca. Nessas situações, os indivíduos podem apresentar comportamentos estranhos, falar com outra voz, manifestar mudanças súbitas de personalidade ou afirmar que uma entidade tomou controlo do seu corpo (Neuner, 2012) . Durante séculos, estas manifestações foram interpretadas em termos religiosos, especialmente no cristianismo, onde se acreditava que demónios ou espíritos malignos podiam possuir o corpo humano (Craffert, 2015).

- Desconstruindo a Possessão Demoníaca:

A investigação científica moderna demonstra que fenómenos deste tipo podem ser compreendidos através de processos psicológicos e neurobiológicos bem conhecidos, sem necessidade de recorrer a explicações sobrenaturais.

Na psicologia contemporânea, experiências deste tipo são frequentemente classificadas como experiências anómalas, ou seja, experiências incomuns que parecem desafiar a explicação comum da realidade, mas que fazem parte do espectro normal das experiências humanas (Cardeña, Lynn & Krippner, 2014). A investigação mostra que experiências anómalas podem ocorrer em indivíduos saudáveis e não implicam necessariamente psicopatologia, embora em alguns casos possam estar associadas a perturbações psicológicas (Cardeña et al., 2014).

Uma das explicações psicológicas mais relevantes para fenómenos interpretados como possessão é a DISSOCIAÇÃO , que corresponde a uma desintegração temporária ou duradoura entre diferentes sistemas psicológicos da personalidade. De acordo com a teoria da dissociação estrutural da personalidade, o trauma psicológico pode levar a uma divisão funcional da personalidade em diferentes subsistemas mentais que operam de forma relativamente autónoma (van der Hart, Nijenhuis & Steele, 2006) . Quando esses sistemas dissociados assumem o controlo do comportamento, a pessoa pode sentir que “não é ela própria” ou que outra entidade está a agir através dela, o que em determinados contextos culturais pode ser interpretado como possessão.

Este tipo de fenómeno é particularmente frequente em situações de STRESSE EXTREMO ou TRAUMA PSICOLÓGICO . Em alguns contextos culturais, experiências de possessão funcionam como aquilo que a psiquiatria/psicologia clínica transcultural chama “idioma de sofrimento”, ou seja, uma forma culturalmente reconhecida de expressar sofrimento psicológico e emocional (Hecker et al., 2016) . Nestes casos, sintomas dissociativos, ansiedade intensa ou memórias traumáticas podem manifestar-se através de episódios de transe ou possessão que são interpretados pela comunidade segundo as crenças religiosas locais (Hecker et al., 2016).

Outro mecanismo importante relacionado com este fenómeno são os ESTADOS ALTERADOS DA CONSCIÊNCIA . A consciência humana não é fixa, podendo variar significativamente em estados como o transe, a hipnose, o sonho, a meditação ou certos rituais religiosos (Cardeña & Winkelman, 2011). Em muitos rituais religiosos, música repetitiva, dança, oração intensa ou práticas meditativas podem induzir estados de transe em que a identidade e o controlo voluntário do comportamento são alterados. Durante esses estados, a pessoa pode sentir que está a ser controlada por uma entidade espiritual, embora do ponto de vista científico se trate de uma modificação temporária do funcionamento cerebral e psicológico (Cardeña & Winkelman, 2011).

A interpretação dessas experiências depende fortemente da CULTURA . Estudos em psiquiatria/psicologia clínica transcultural mostram que experiências semelhantes podem ser interpretadas de maneiras muito diferentes em sociedades distintas. Em algumas culturas, os estados de possessão são vistos como fenómenos espirituais normais ou até desejáveis, enquanto em outras são interpretados como sinais de doença mental (Şar, 2022). Além disso, em certos contextos religiosos, a possessão pode desempenhar funções sociais ou simbólicas, como expressar conflitos emocionais, lidar com trauma ou reforçar identidades culturais e espirituais (Şar, 2022).

Vários estudos recentes também sugerem que muitos casos interpretados como possessão estão associados a condições psicopatológicas ou neurológicas específicas. Por exemplo, perturbações DISSOCIATIVAS, EPILEPSIA do lobo temporal, estados PSICÓTICOS ou perturbações TRAUMÁTICAS podem produzir sintomas que historicamente foram interpretados como possessão demoníaca (Perrotta, 2021). Investigações clínicas mostram que intervenções psicológicas, psiquiátricas e neurológicas adequadas podem reduzir ou eliminar esses episódios, reforçando a ideia de que se trata de fenómenos psicopatológicos ou psicofisiológicos e não de origem sobrenatural (Perrotta, 2021).

Revisões científicas recentes também analisaram o fenómeno de forma multidisciplinar. Uma revisão abrangente de casos publicados entre 1890 e 2023 concluiu que episódios de possessão envolvem frequentemente uma combinação de fatores psicológicos, culturais e médicos, sendo particularmente relevantes os processos dissociativos e as crenças culturais que moldam a interpretação da experiência (Escolà-Gascón, Ovalle & Matthews, 2023) . Outros estudos contemporâneos confirmam que crenças em possessão resultam frequentemente da interação entre fatores psicológicos, espirituais e sociais, o que explica a persistência desse fenómeno em diferentes sociedades (Testoni et al., 2025).

Assim, aquilo que durante séculos foi entendido como possessão demoníaca pode hoje ser compreendido como uma manifestação complexa do funcionamento da mente humana. Fenómenos como dissociação, trauma psicológico, estados alterados de consciência e influência cultural podem produzir experiências extremamente intensas e convincentes, que são interpretadas segundo o sistema de crenças da pessoa e da comunidade em que vive. A ciência contemporânea sugere, portanto, que a possessão não é causada por entidades sobrenaturais, mas sim por processos psicológicos, neurológicos e socioculturais que moldam a forma como os seres humanos experimentam e interpretam estados extremos da mente.

A Imagem é uma pintura de 1788 de Francisco Goya que retrata São Francisco realizando um exorcismo.

Referências

Cardeña, E., Lynn, S. J., & Krippner, S. (Eds.). (2014). Varieties of anomalous experience: Examining the scientific evidence (2nd ed.). American Psychological Association.

Cardeña, E., & Winkelman, M. (Eds.). (2011). Altering consciousness: Multidisciplinary perspectives (Vol. 1). Praeger.

Craffert, P. F. (2015). Spirit possession and the construction of identity: A cross-cultural perspective. HTS Teologiese Studies / Theological Studies, 71(1), 1–9. https://doi.org/10.4102/hts.v71i1.3014

Escolà-Gascón, Á., Ovalle, J. C., & Matthews, W. (2023). Demonic possession: A systematic review of historical and scientific perspectives (1890–2023). Journal of Scientific Exploration, 37(3), 470–503.

Hecker, T., Böhnke, J. R., Breuer, D., & Maercker, A. (2016). Cultural concepts of distress and trauma in post-conflict settings: A systematic review. Social Science & Medicine, 150, 180–190. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2015.12.031

Neuner, F. (2012). Possession states and mental disorders: Cultural explanations and clinical implications. Social Science & Medicine, 75(3), 540–548. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2012.03.031

Perrotta, G. (2021). Clinical evidence in the phenomenon of demonic possession: A systematic review of scientific literature. Annals of Psychiatry and Mental Health, 9(5), 1–8.

Şar, V. (2022). Possession, dissociation, and the self: Cultural and clinical perspectives. Frontiers in Psychiatry, 13, 959066. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2022.959066

Testoni, I., Facco, E., Perelda, F., & Ronconi, L. (2025). Demonic possession beliefs and psychological processes: An interdisciplinary perspective. Journal of Religion and Health.

van der Hart, O., Nijenhuis, E. R. S., & Steele, K. (2006). The haunted self: Structural dissociation and the treatment of chronic traumatization. W. W. Norton.

➡️O que é a Perturbação de Stress Pós-Traumático Complexa (PSPT-C)?A Perturbação de Stress Pós-Traumático Complexa (PSPT...
05/03/2026

➡️O que é a Perturbação de Stress Pós-Traumático Complexa (PSPT-C)?

A Perturbação de Stress Pós-Traumático Complexa (PSPT-C) é uma condição psicológica que surge após exposição prolongada ou repetida a acontecimentos extremamente ameaçadores ou horríveis, especialmente quando a pessoa sente que não consegue escapar ou proteger-se (World Health Organization [WHO], 2024).

A PSPT-C está oficialmente reconhecida na Classificação Internacional de Doenças (ICD-11) como um diagnóstico distinto da Perturbação de Stresse Pós-Traumático (PSPT) (WHO, 2024).

Esta perturbação está frequentemente associada a experiências como abuso físico ou sexual prolongado, negligência emocional persistente, violência doméstica crónica, tortura, escravidão, cativeiro ou contextos de guerra (WHO, 2024).

Walker (2013) descreve a PSPT-C como frequentemente relacionada com trauma relacional crónico na infância, sobretudo quando existe abuso emocional e negligência continuada.

Segundo Steele, Boon e van der Hart (2017), o trauma prolongado interfere com a integração da personalidade e pode levar a fenómenos dissociativos e fragmentação da experiência interna.

✔️Quais são os sintomas?

De acordo com o ICD-11, a PSPT-C inclui todos os sintomas da PSPT, acrescidos de alterações persistentes na organização do self (WHO, 2024).

-Sintomas nucleares (presentes também na PSPT)

A pessoa pode apresentar:
• Revivescência do trauma sob a forma de flashbacks ou pesadelos (WHO, 2024)
• Evitamento persistente de pensamentos, memórias ou situações associadas ao trauma (WHO, 2024)
• Sensação constante de ameaça, hipervigilância ou sobressalto exagerado (WHO, 2024)

Walker (2013) descreve especialmente os chamados flashbacks emocionais, nos quais a pessoa revive estados intensos de medo, vergonha ou desespero sem imagens claras do passado.

-Sintomas adicionais (perturbação da auto-organização)

A PSPT-C inclui três áreas adicionais (WHO, 2024):

Desregulação emocional:

Dificuldade persistente em regular emoções, podendo ocorrer explosões emocionais intensas ou, pelo contrário, entorpecimento emocional (WHO, 2024).

Steele et al. (2017) explicam que o trauma prolongado pode levar à ativação de partes dissociativas da personalidade, dificultando a regulação afetiva.

Autoimagem negativa persistente:

Sentimentos duradouros de vergonha, culpa, inutilidade ou sensação de estar “defeituoso” (WHO, 2024).

Walker (2013) descreve a presença de um “crítico interno” severo e de vergonha tóxica como consequências frequentes do trauma infantil crónico.

Dificuldades nas relações interpessoais:

Dificuldade em manter relações próximas, desconfiança persistente ou padrões relacionais marcados por medo e submissão (WHO, 2024).

Segundo Steele et al. (2017), o trauma interpessoal precoce compromete os sistemas de vinculação e afeta profundamente a capacidade relacional.

✔️Como se distingue da PSPT?

A principal diferença é que a PSPT-C inclui alterações profundas e persistentes na regulação emocional, na identidade e nas relações interpessoais, enquanto a PSPT não exige essas alterações adicionais (WHO, 2024).

A PSPT pode desenvolver-se após um único evento traumático, enquanto a PSPT-C está tipicamente associada a trauma repetido ou prolongado, muitas vezes interpessoal (WHO, 2024).

Steele et al. (2017) referem que o trauma prolongado aumenta a probabilidade de fenómenos dissociativos estruturais, o que não é necessariamente observado na PSPT simples.

Walker (2013) sugere que muitos indivíduos diagnosticados com depressão, ansiedade ou perturbações da personalidade podem, na realidade, apresentar manifestações de PSPT-C não reconhecida.

✔️Quando aparece? Idade do diagnóstico?

A PSPT-C pode desenvolver-se em qualquer idade, mas é particularmente frequente quando o trauma ocorre durante a infância ou adolescência (WHO, 2024).

O trauma precoce interfere com o desenvolvimento da identidade, da regulação emocional e da integração psicológica (Steele et al., 2017).

Muitas pessoas apenas recebem diagnóstico na idade adulta, mesmo que o trauma tenha ocorrido décadas antes (WHO, 2024).

Walker (2013) descreve que sobreviventes de trauma infantil frequentemente compreendem a natureza do seu sofrimento apenas muitos anos depois.

✔️Etiologia (Causas)

A PSPT-C resulta da exposição prolongada ou repetida a eventos extremamente ameaçadores ou horríveis (WHO, 2024).

O trauma interpessoal, especialmente quando envolve figuras de cuidado, tem impacto particularmente profundo no desenvolvimento psicológico (Steele et al., 2017).

A negligência emocional crónica pode ser tão prejudicial quanto o abuso físico ou sexual (Walker, 2013).

A dissociação é descrita como um mecanismo central no trauma, funcionando inicialmente como estratégia de sobrevivência, mas podendo tornar-se desadaptativa quando persiste (Steele et al., 2017).

Referências

Steele, K., Boon, S., & van der Hart, O. (2017). Treating trauma-related dissociation: A practical, integrative approach. W. W. Norton.

Walker, P. (2013). Complex PTSD: From surviving to thriving. Azure Coyote.

World Health Organization. (2024). Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. WHO.

✔️O que é a Perturbação da Personalidade Borderline?A Perturbação da Personalidade Borderline (PPB) é uma condição de sa...
01/03/2026

✔️O que é a Perturbação da Personalidade Borderline?

A Perturbação da Personalidade Borderline (PPB) é uma condição de saúde mental marcada por instabilidade emocional intensa, dificuldades nas relações e um sentido de identidade frágil. Este padrão é persistente e causa sofrimento significativo (Leichsenring et al., 2023; World Health Organization [WHO], 2024).

Do ponto de vista psicodinâmico, trata-se de uma organização da personalidade caracterizada por difusão da identidade e dificuldades na integração das experiências emocionais (Gabbard, 2014).

✔️Quais são os principais sinais?

Emoções muito intensas e difíceis de regular:

As emoções podem mudar rapidamente e ser vividas com grande intensidade. A pessoa pode sentir-se dominada por tristeza, raiva ou ansiedade, tendo dificuldade em recuperar o equilíbrio (Leichsenring et al., 2023; WHO, 2024).

Segundo Gabbard (2014), esta instabilidade está associada a fragilidade na organização interna da personalidade e dificuldade na regulação afetiva.

Medo intenso de abandono:

Existe um medo profundo de ser rejeitado ou deixado. Pequenos sinais podem ser interpretados como abandono iminente (Leichsenring et al., 2023; WHO, 2024).

Do ponto de vista psicodinâmico, a ameaça de perda pode ativar sentimentos internos de desintegração ou vazio (Gabbard, 2014).

Relações instáveis:

Os relacionamentos tendem a alternar entre idealização e desvalorização. A mesma pessoa pode ser vista como “perfeita” num momento e “má” no seguinte (Leichsenring et al., 2023).

Gabbard (2014) explica que esta oscilação está ligada ao uso do mecanismo de defesa chamado clivagem, no qual aspetos positivos e negativos não conseguem ser integrados numa imagem coesa.

Identidade instável:

Pode existir dificuldade em saber quem se é, quais são os próprios valores ou objetivos de vida. Mudanças frequentes de autoimagem são comuns (WHO, 2024; Leichsenring et al., 2023).

Gabbard (2014) descreve isto como difusão da identidade, uma característica central da organização borderline.

Impulsividade:

Comportamentos impulsivos - como gastos excessivos, decisões precipitadas ou comportamentos de risco - são frequentes (Leichsenring et al., 2023).

Segundo Gabbard (2014), a impulsividade pode ser uma forma de aliviar tensão emocional intensa. Em contextos de trauma, comportamentos impulsivos podem também funcionar como tentativas de regulação de estados internos difíceis de tolerar (Steele, Boon, & Van der Hart, 2017).

Sentimento de vazio:

Muitas pessoas com PPB descrevem uma sensação persistente de vazio interior (Leichsenring et al., 2023).

Na perspetiva psicodinâmica, este vazio pode estar ligado a falhas na consolidação de um self coeso (Gabbard, 2014).

Autoagressão e pensamentos suicidas:

Podem ocorrer comportamentos de auto-lesão ou ideação suicida, especialmente em momentos de sofrimento intenso (Leichsenring et al., 2023).

Estes comportamentos são frequentemente tentativas de lidar com dor emocional esmagadora ou com estados internos dissociativos (Steele et al., 2017).

Sintomas dissociativos sob stresse:

Em momentos de grande tensão, a pessoa pode sentir-se desligada de si própria ou do mundo, como se estivesse “fora da realidade” (WHO, 2024; Leichsenring et al., 2023).

Segundo o modelo da dissociação estrutural, experiências traumáticas precoces podem levar a dificuldades na integração das experiências emocionais, favorecendo episódios dissociativos quando o stresse aumenta (Steele et al., 2017).

✔️Quando começa?

Os sinais costumam surgir na adolescência ou no início da idade adulta (Leichsenring et al., 2023).

A ICD-11 indica que o diagnóstico pode ser considerado na adolescência quando o padrão é persistente e causa sofrimento significativo, não sendo apenas uma fase normal do desenvolvimento (WHO, 2024).

✔️Porque acontece?

A PPB resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos e ambientais (Leichsenring et al., 2023; WHO, 2024).

Fatores biológicos:

Existe evidência de vulnerabilidade temperamental para maior reatividade emocional e impulsividade, com influência genética moderada (Leichsenring et al., 2023).

Experiências adversas na infância:

História de abuso, negligência ou ambientes familiares instáveis está associada a maior risco de desenvolvimento da perturbação (Leichsenring et al., 2023; Leichsenring et al., 2024).

Segundo Steele et al. (2017), experiências traumáticas precoces podem comprometer a integração emocional e favorecer respostas dissociativas.

Desenvolvimento da identidade:

Gabbard (2014) descreve que falhas no desenvolvimento de um sentido coeso de self e dificuldades na integração das representações internas de si e dos outros são centrais na organização borderline.

➡️A Perturbação da Personalidade Borderline envolve instabilidade emocional intensa, medo de abandono, relações difíceis, identidade frágil e impulsividade. Pode incluir episódios dissociativos sob stresse. Surge geralmente na adolescência e resulta da combinação de vulnerabilidade biológica, experiências precoces adversas e dificuldades na integração emocional e identitária (Leichsenring et al., 2023; Gabbard, 2014; Steele et al., 2017; WHO, 2024).

Referências

Gabbard, G. O. (2014). Psychodynamic psychiatry in clinical practice (5th ed.). American Psychiatric Publishing.

Leichsenring, F., Heim, N., Leweke, F., & Spitzer, C. (2023). Borderline personality disorder: A review. JAMA, 329(8), 670–681. https://doi.org/10.1001/jama.2023.0589

Leichsenring, F., et al. (2024). Borderline personality disorder: A comprehensive review of current diagnostic practices, risk factors, neurobiology, cognition, and management. The Lancet Psychiatry, 11(1), 50–65. https://doi.org/10.1016/S2215-0366(23)00392-1

Steele, K., Boon, S., & Van der Hart, O. (2017). Treating trauma-related dissociation: A practical, integrative approach. W. W. Norton & Company.

World Health Organization. (2024). Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. World Health Organization.

Perturbação Dissociativa da Identidade
28/02/2026

Perturbação Dissociativa da Identidade

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Vila Real De Santo António
8900-211

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