19/02/2026
➡️Quando o “eu” e o mundo deixam de parecer reais: compreender a despersonalização e a desrealização
A dissociação é um fenómeno psicológico amplo, que inclui diferentes formas de alteração da experiência consciente. Pode manifestar-se como amnésia dissociativa, fragmentação interna, estados dissociativos mais complexos ou, de forma mais frequente, como despersonalização e desrealização. Neste texto focamo-nos apenas nestas duas últimas, que representam manifestações comuns da dissociação em pessoas expostas a stress extremo ou experiências traumáticas (Steele et al., 2017).
De forma geral, a dissociação pode ser compreendida como uma perturbação da integração da experiência. Steele, Boon e Van der Hart (2017) descrevem-na como um problema de não-realização: a pessoa deixa de conseguir sentir plenamente que algo é real, que lhe pertence ou que está a acontecer no presente. Emoções, sensações corporais, pensamentos e memórias deixam de funcionar como um todo coerente, passando a existir de forma parcial ou desconectada.
Este processo não é voluntário nem consciente. Trata-se de uma resposta automática de sobrevivência perante experiências vividas como excessivamente ameaçadoras (Steele et al., 2017).
✔️Despersonalização: afastamento da própria experiência de si
Na despersonalização, o afastamento ocorre em relação ao próprio self. A pessoa pode sentir-se desligada do corpo, da voz ou das emoções, como se estivesse a observar-se de fora ou a funcionar de forma automática. São comuns vivências de vazio emocional, anestesia afetiva e perda da sensação de identidade viva e presente (Steele et al., 2017).
Apesar do sofrimento associado, a pessoa mantém contacto com a realidade externa. Não existe perda do juízo de realidade. O que está alterado é a experiência subjetiva do eu, que deixa de ser sentida como integrada ou plenamente presente.
Do ponto de vista psicodinâmico, estas experiências refletem dificuldades precoces na organização do self, resultantes de contextos relacionais em que emoções intensas não puderam ser simbolizadas nem integradas. Gabbard (2014) descreve como falhas no desenvolvimento das estruturas internas podem levar à utilização de defesas profundas, incluindo fenómenos dissociativos, para manter algum equilíbrio psicológico.
✔️Desrealização: afastamento da realidade externa
Na desrealização, o afastamento dirige-se ao mundo exterior. O ambiente pode parecer artificial, distante ou onírico; as pessoas podem ser vividas como irreais; e o mundo perde a sua qualidade de presença. Tal como na despersonalização, a pessoa reconhece intelectualmente que a realidade é real, mas já não a sente dessa forma (Steele et al., 2017).
Estas experiências representam alterações da vivência da realidade, não perturbações psicóticas. A consciência da realidade mantém-se preservada, ainda que a experiência emocional da mesma esteja profundamente modificada.
✔️Origem destas experiências
Segundo Steele et al. (2017), a dissociação desenvolve-se sobretudo em contextos de ameaça intensa, particularmente quando o trauma ocorre precocemente, envolve figuras de vinculação, é repetido ou prolongado, e não existe proteção externa suficiente. Nestas circunstâncias, a experiência torna-se impossível de integrar no momento em que acontece.
O psiquismo passa então a organizar-se em diferentes estados funcionais: alguns orientados para a vida quotidiana, outros fixados em experiências traumáticas ou em sistemas defensivos associados ao perigo. Esta organização dissociativa permite à pessoa sobreviver psicologicamente a realidades incompatíveis, como depender emocionalmente de alguém que simultaneamente é fonte de ameaça (Steele et al., 2017).
Gabbard (2014) acrescenta que, quando experiências emocionais intensas não conseguem ser simbolizadas no desenvolvimento, surgem fragmentações internas e défices estruturais do self. Estas fragilidades favorecem o recurso a mecanismos dissociativos como forma de lidar com afetos intoleráveis e conflitos internos profundos.
Assim, a dissociação não resulta de fraqueza pessoal, mas de uma necessidade adaptativa perante experiências que excederam a capacidade integrativa do organismo.
✔️O papel do corpo e do sistema nervoso
A dissociação envolve necessariamente o corpo e o sistema nervoso. Steele et al. (2017) descrevem como experiências traumáticas ativam intensamente os sistemas defensivos, levando a respostas de luta, fuga ou congelamento. Quando estas respostas não podem ser completadas ou quando a ameaça é contínua, o organismo pode recorrer ao desligamento como estratégia de proteção.
Por isso, muitas pessoas relatam saber racionalmente que estão seguras, mas não conseguem sentir essa segurança. A despersonalização associa-se frequentemente a estados de entorpecimento e desligamento corporal, enquanto a desrealização pode surgir após períodos de elevada ativação emocional, funcionando como tentativa automática de reduzir a sobrecarga do sistema nervoso (Steele et al., 2017).
A memória traumática não é apenas narrativa. O corpo mantém padrões de tensão, colapso ou alerta, mesmo quando a pessoa não possui recordações claras dos acontecimentos. Estes padrões refletem experiências que não puderam ser integradas no momento em que ocorreram (Steele et al., 2017; Gabbard, 2014).
✔️Conclusão
A dissociação é um fenómeno amplo, com múltiplas manifestações. Neste texto abordámos apenas despersonalização e desrealização, duas formas frequentes desta resposta adaptativa.
Ambas representam estratégias automáticas de sobrevivência perante ameaça extrema. Não implicam perda de contacto com a realidade. Resultam da interação entre sistema nervoso, corpo e história relacional, emergindo quando experiências emocionais não puderam ser integradas no desenvolvimento do self (Steele et al., 2017; Gabbard, 2014).
A dissociação constitui uma adaptação profunda do organismo a experiências excessivamente difíceis. À medida que se cria segurança relacional e se promove integração progressiva da experiência, estes estados podem transformar-se, permitindo uma recuperação gradual da presença, do sentido de identidade e da vivência de realidade.
Referências
Gabbard, G. O. (2014). Psychodynamic psychiatry in clinical practice (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing.
Steele, K., Boon, S., & Van der Hart, O. (2017). Treating trauma-related dissociation: A practical, integrative approach. New York, NY: W. W. Norton & Company.