11/01/2026
AMOR ✨🫶
EU FIZ A AUTÓPSIA DE UM CASAL DE IDOSOS QUE MORREU CONGELADO. A POLÍCIA CHAMOU DE “MORTE NATURAL”. MAS AS ROUPAS CONTARAM UMA HISTÓRIA QUE ME QUEBROU.
“Os mortos não falam.”
Foi a primeira frase que ouvi na faculdade de medicina legal.
Cortar. Medir. Pesar. Fechar.
Frieza, método, silêncio.
Sou legista há quinze anos. Já vi horrores suficientes para endurecer qualquer alma. Acreditei que o meu coração tinha virado pedra.
Até Don José e Dona Maria entrarem na sala.
Era a madrugada mais fria de janeiro.
Uma casa de madeira na periferia, o vento entrando como lâmina.
Sem aquecimento. Sem dinheiro.
— Hipotermia. Caso simples, doutor — disse o policial, entregando-me o relatório.
Coloquei-os nas mesas de aço. Dois corpos pequenos, frágeis, esculpidos pelo gelo. Comecei o ritual de sempre: examinar as roupas.
E foi aí que a “morte natural” desmoronou.
Dona Maria estava vestida com camadas demais. Camisola de lã, camisa masculina larga, colete de homem, um casaco velho e remendado. Nos pés, dois pares de meias: um rosa, outro cinzento de lã.
Virei-me para Don José.
Ele estava quase nu. Apenas uma camisola interior finíssima e a roupa íntima dela. Nenhuma meia. Nenhuma calça. A pele mais pálida, os lábios mais azuis.
A polícia falou em “desnudamento paradoxal”. Mas os corpos, quando lidos com atenção, nunca mentem.
A rigidez, a temperatura interna, os tempos de morte traçaram a sequência invisível:
Don José morreu horas antes dela.
Quando percebeu que o frio os venceria, ele não enlouqueceu. Ele decidiu.
Tirou o casaco e colocou nela.
Tirou o colete e colocou nela.
Tirou a camisa e colocou nela.
Arrancou as próprias meias para aquecer os pés da esposa.
Ficou nu diante da morte para ser a última fogueira dela.
As escoriações nas mãos dele revelaram o último gesto: esfregou-lhe os braços até perder a consciência.
Morreu tremendo, oferecendo o pouco calor que lhe restava para que ela vivesse mais um pouco.
E ela não morreu sozinha.
O coração dela parou não só pelo frio, mas pela dor de vê-lo partir. Na mão fechada, encontrei um botão da camisa dele, arrancado enquanto o segurava ao peito.
Saí da sala. Tirei as luvas. Sentei-me no corredor branco de hospital e chorei.
Na certidão, escrevi: hipotermia. No meu íntimo, registrei: amor absoluto.
Ninguém veio buscá-los. Eram pobres, invisíveis. Paguei para que fossem enterrados juntos. Não permitiria que a terra os separasse depois de tamanha entrega.
Perguntam-me qual foi o caso mais horrível que já vi. Esperam monstros, assassinos, sangue.
Mas eu penso em Don José.
Porque não existe violência maior nem beleza mais crua do que um ser humano escolher morrer de frio para ser o último abrigo de quem ama.
O amor não se mede em flores nem em promessas. Mede-se na coragem de se despir da própria vida para cobrir o outro quando o inverno chega.
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LITERÁDLA EVOLLUCINA DADAMAI