12/01/2025
O Sujeito em um Caso
"And his umbrella was in a case, and his watch was in a case made of grey chamois leather, and when he took out his penknife to sharpen his pencil, his penknife, too, was in a little case; and his face seemed to be in a case too, because he always hid it in his turned-up collar."
Anton Chekhov in The man in a Case
Em Chekhov, o "homem no estojo" é uma espécie de hospedeiro de múltiplos continentes de categorias fixas correspondente a objetos pré-determinados – um estojo para o guarda‑chuva, um para o relógio, um para o canivete, até o rosto parece sempre encaixotado –, o percurso empacotado, imune ao encontro. A linguagem médica coloquialmente se serve de categorizações análogas: refere-se usualmente a um paciente em tratamento como "um caso em andamento". 'O caso do 305 que ainda não fechou o diagnóstico', 'o típico textbook case de ADHD' ou 'o caso mais difícil' são metáforas comuns em ficção médica ou práticas clínicas, utilizadas quando, tantas vezes, para o paciente, a leveza de um 'caso' está muito menos em questão do que o peso inteiro de uma vida.
Ora, Freud intitulou seus escritos como 'Caso Dora', 'Caso do Pequeno Hans'. Mas há uma diferença fundamental: o nome próprio aqui não funciona como etiqueta diagnóstica que classifica, mas como marca de uma experiência singular irredutível à generalização. 'Caso Dora' não significa que Dora seja um exemplar de uma categoria, mas que há uma construção narrativa e conceitual que emerge do encontro analítico com aquela pessoa específica. O nome preserva justamente o que resiste à universalização.
Essa redução - a metáfora utilitária do paciente pelo caso - coloca questões específicas à ética psicanalítica. Para a psicanálise, o analisante não se apresenta ao modo de espécie/objeto cabível em um gênero/estojo diagnóstico. Mas isso não significa que não haja caso clínico em psicanálise.
Um caso clínico psicanalítico não emerge de um modelo, mas de uma experiência. Mas o que define essa experiência como formalizável? É possível dela algo resulte de transmissível sem que seja reduzida a uma categoria? A experiência de que se trata articula dimensões fundamentais da psicanálise como um tratamento particular, um procedimento de investigação do inconsciente, e a possibilidade de formalização que permite transmissão e debate. Ética e discurso. O caso é o ponto onde essas vertentes se encontram.
O sujeito entra em análise. O caso emerge dessa travessia - não como contenção prévia, mas como construção posterior; não como estojo que o precede, mas como escrita que o sucede.