04/14/2018
Foi no dia 14 de abril de 1909 que Carlos Chagas identificou o parasita T. cruzi no sangue de Berenice, então uma menina de dois anos. Atualmente, a data é usada por vários grupos de pessoas afetadas por Chagas para marcar o Dia Internacional de combate ao Chagas.
Mais de setenta anos depois da descoberta da doença foi formada a primeira associação de pacientes do mundo, a Casa de Chagas. Esse espaço público de saúde promove a atenção especializada ao portador da doença também teve papel fundamental na mobilização das pessoas afetadas e no estabelecimento do marco de 14 de abril..
Com essa data em mente, a Plataforma Chagas entrevistou a equipe do ambulatório de atendimento da Casa de Chagas, a hematologista Cristina Carrazzone e o cardiologista Wilson de Oliveira Jr., e a presidente da Associação de pacientes Maria José de Queiroz, para falar sobre seu pioneirismo e saber mais sobre suas atividades.
- Como funciona o modelo de atendimento para Chagas em Recife?
Em Pernambuco, a atenção aos pacientes com doença de Chagas tem ocorrido de forma descentralizada e de acordo com o grau de comprometimento visceral do paciente. Há cerca de 30 anos os pacientes com doença de Chagas de todo Estado têm sido acompanhados no Serviço de Referência para a Enfermidade, no Recife. Inicialmente, eles eram atendidos no Hospital Universitário Oswaldo Cruz, mas já há dez anos passaram a ser encaminhados à Casa de Chagas, conhecida como Hospital de Cardiologia PROCAPE, da Universidade de Pernambuco. Juntamente com o Programa SANAR, da Secretaria Estadual da Saúde, foi criada a Rede Chagas PE, com profissionais treinados e capacitados no manejo clínico de pacientes com doença de Chagas. Paralelamente, a rede de controle entomológico foi fortalecida com a definição de municípios prioritários para controle do triatomíneo. Houve a descentralização do diagnóstico sorológico pela Rede LACEN, treinamento do agravo na Rede Básica de Atenção à Saúde e estreitamento com a Hemorrede Estadual para o acolhimento do ex-doador de sangue com sorologia reagente ao T. cruzi.
- Vocês trabalham com a descentralização da atenção ao paciente com doença de Chagas. Como está sendo essa experiência?
Embora precoce, já podemos afirmar que tem sido uma experiência exitosa. No entanto, requer: constância de propósito, equipe comprometida, manutenção da decisão e propósito político.
- A Casa de Chagas abriga a Associação do Portador de Doença de Chagas e Insuficiência Cardíaca de Recife/Pernambuco (APDCIM), pioneira na mobilização social de pessoas afetadas pela doença de Chagas. Podem nos contar mais sobre essa relação?
A Casa de Chagas surgiu em 2010, fruto de um esforço coletivo de doadores públicos e privados que não mediram esforços para que o serviço fosse implantado e atualmente abriga o Ambulatório anexo ao PROCAPE-UPE de Referência em doença de Chagas, Marcapasso, Insuficiência Cardíaca e Transplante Cardíaco; e, claro, a Associação de Pacientes da doença de Chagas, criada em 1987, pioneira no mundo. O serviço está estruturado de forma multiprofissional contando com atendimento médico, de enfermagem, psicologia e terapia ocupacional. A sede da Associação, com sua Presidência e Diretoria Executiva, desenvolve trabalho conjunto em prol dos pacientes matriculados e acompanhados na Casa de Chagas, contando com 640 sócios e 14 voluntários.
- O que vocês destacariam em um modelo de atenção à doença de Chagas?
A doença de Chagas é um agravo da área Médica que graças a sua diversidade de graus de comprometimento, pode demandar diferentes níveis de assistência. Pacientes com nenhum, ou com baixo grau de comprometimento visceral – que representam cerca de 60% do número de pessoas com a infecção – podem e devem ser acompanhados nas Unidades Básicas da Saúde. Por outro lado, pessoas com a expressão mais grave da doença que cursam com Insuficiência Cardíaca e/ou com sistema digestivo e sistema nervoso acometidos, necessitam de serviços de alta complexidade. Na verdade, um modelo proposto pelo SUS é o ideal para o seguimento a pacientes com doença de Chagas: universal, hierarquizado, equânime e descentralizado.