06/02/2026
Ainda sobre o narcisismo …
A maior parte das pessoas que lida de perto com um narcisista — começa, pouco a pouco, a duvidar de si. E, com o tempo, a duvidar da própria sanidade mental.
Não por fragilidade, mas como consequência de manipulação que planta a semente da dúvida e da insegurança. Chama-se a isto gaslighting.
O termo nasceu do filme Gaslight (George Cukor, 1944), protagonizado por Ingrid Bergman. A casa onde a personagem vivia era iluminada a gás, e o marido alterava sistematicamente, e sem o seu conhecimento, a intensidade da luz, causando a diminuição da luminosidade sem causa aparente; mudava o sítio de objetos seus, tentando convencer a esposa que era tudo imaginação sua, com o intuito de a internar compulsivamente num hospício por alegada insanidade, para se apoderar dos seus bens.
Negava todas as alterações repetidamente. Num ataque sistemático à sua confiança em si mesma, até ela começar a duvidar do que via, do que sentia, do que percebia.
É exatamente isso que acontece no narcisismo relacional. O gaslighting não é um mal-entendido. É distorcer a realidade para dominar e confundir.
A realidade é constantemente reescrita até que a outra pessoa comece a perguntar-se: “será que estou a exagerar?”, “será que percebi mal?”, “o problema sou eu?”
Tal como no filme, o efeito não surge de um episódio isolado, mas da repetição. E quem está do outro lado perde o centro.
A saída está em voltar a confiar no que se vê, no que se sente e no que se sabe, com apoio especializado e distância.
E duvidar, sim, das “boas” intenções de quem plantou a dúvida.
Para ganhar de novo o controlo — e, com ele, a lucidez. Tudo começa pela consciencialização e pelo reconhecimento da manipulação e dos danos causados.